A coligação de Passos e Paulo venceu as legislativas. Costa perdeu. À
esquerda do PS ganharam todos como é costume, mas desta vez só o BE pode mesmo
cantar. E o PAN entrou no Parlamento
1. A PàF ganhou
Depois de quatro anos de empobrecimento e austeridade violenta e de um
rol imenso de promessas que ficaram por cumprir o país falou. Decidiu votar, de
forma clara e inequívoca, nos partidos da coligação, não lhes renovando porém a
maioria absoluta de que dispunham e retirando-lhes mais de 700 mil votos na
comparação com 2011. Não reconhecer que a formação de um governo legítimo cabe
agora ao PSD e ao CDS é faltar ao respeito a quase 39% dos eleitores. Vão ter
que negociar? Claro que sim. Mas em democracia, mesmo sob pretensas vitórias
morais, não pode haver batota. O país votou e a PàF ganhou, e isso é que conta.
2. O PS perdeu
É uma evidência que António Costa é o perdedor da noite. Pediu
"confiança" aos portugueses mas os eleitores negaram-lha. Pediu uma
maioria absoluta mas acabou com uma derrota inequívoca, ao nível dos resultados
pífios mas ganhadores que apearam António José Seguro da liderança do PS.
Perante o que aconteceu, António Costa não se demite. Por difícil que seja a
sua sobrevivência política - e não haja dúvidas de que é - o PS enfrenta hoje
um problema sério que se traduz numa única pergunta: quem é que pode substituir
António Costa? Por mais candeias que se acendam no Largo do Rato, a verdade é
que, nesta altura, não há ninguém. Ficando Costa, pelo menos por agora, é a
garantia de que à esquerda a direita tem interlocutor, pelo menos até ao
Orçamento.
3. O tempo de Cavaco
Os resultados das eleições de ontem reconduzem o Presidente da República
a um papel central na política portuguesa. Perante uma maioria aritmética que,
em tese, poderia bloquear o Parlamento e o governo de direita, cabe-lhe
arbitrar a negociação que garanta a estabilidade governativa. Cavaco Silva que
hoje, inexplicavelmente, há-de falhar as celebrações do 5 de Outubro,
demonstrando por que razão é o Presidente com menor popularidade da democracia,
tem aqui a derradeira oportunidade para terminar o seu mandato com dignidade.
Poderia começar por celebrar a República já que é por causa dela que é
Presidente. O resto só depende dele e do sentido de responsabilidade dos
partidos parlamentares.
4. A maldição de Sócrates
Diga-se o que se disser - e não está em causa o princípio da presunção
de inocência de que todos devemos beneficiar num Estado de direito - a inédita
prisão de um ex-primeiro-ministro a um ano de eleições foi fortemente
penalizadora para o partido a que pertence. Uma parte do país já não guardava
boas recordações de José Sócrates, mas o processo judicial em que se viu
envolvido e o consequente e lamentável julgamento em praça pública de que tem
sido alvo acabaram por ser os ingredientes que faltavam para que as memórias de
2011 e da pré-bancarrota viessem ao de cima como uma ferida em carne viva. A
campanha incompetente do PS fez o resto e António Costa acabou a pagar a
fatura.
5. O Bloco que capitaliza
É uma das vencedoras da noite. Liberta do espartilho da liderança
bicéfala inventada por Francisco Louçã, Catarina Martins apareceu renovada
nesta campanha. Emancipou-se e afirmou-se como um trunfo de grande
rentabilidade eleitoral mais do que duplicando o número de deputados. Perante a
incapacidade socialista de federar o descontentamento, o Bloco de Esquerda foi
quem mais beneficiou da derrocada do PS. À noite, mais rápida do que a própria
sombra, Catarina quis encostar Costa às cordas e anunciou que rejeitará o
governo minoritário da direita, desafiando o PS a fazer o mesmo. É uma cartada
arriscada, mas só o BE e o PCP a podiam jogar. A estes costumes o PS disse
nada. Ou seja, não há frentismos de esquerda que sobrevivam ao teste do
algodão: há os que existem para governar e os que servem para empatar.
6. O papão
O país regrediu culturalmente nesta campanha. De certo modo o eleitorado
reagiu negativamente ao papão agitado pela coligação PàF de que a uma vitória
do PS corresponderia uma ameaça comunista. No fundo, e em pleno século XXI,
regressámos a um tempo em que se dizia, e muitos acreditavam, que os comunistas
comiam criancinhas ao pequeno-almoço e matavam os velhos com injeções atrás da
orelha. A política tem esta capacidade de nos tornar irracionais ao ponto de
acreditarmos em mitos e lendas. Só os mais distraídos poderiam acreditar num
acordo de governo que casasse um partido europeísta com outro que quer romper
com a Europa e com o euro. Deve ser, só pode, porque desistimos de ver o óbvio.
7. Compêndio para uma derrota
Quem há seis meses, talvez até mesmo há três, dissesse que o PS ia
perder estas eleições era, com toda a certeza, apelidado de louco. O país
estava revoltado e exaurido pelos cortes e pela austeridade. António Costa
farejou isso mesmo e chegou à liderança do PS com um capital de esperança que o
atiravam para lá de uma maioria absoluta nas sondagens. Decidiu prometer mundos
e fundos, avançou para o radicalismo discursivo que não batia certo com o seu
programa económico, apostou tudo no roubo de votos à sua esquerda. Esqueceu-se,
porém, de que o país não é o mesmo de há 20 ou 30 anos - embora às vezes pareça
- e que as eleições se ganham ao centro. Foi esta fatia determinante do
eleitorado que o PS alienou, mostrando a toda a gente como se faz para perder
umas eleições.
8. Abstenção recorde
Os discursos da noite foram de elogio à participação cívica dos eleitores.
Pudera, a expectativa era tão baixa e a consciência de tal modo pesada, que os
principais responsáveis políticos se deram como satisfeitos por apenas 43,07%
dos portugueses se terem abstido. Nada pior, como diz o povo, do que um cego
que insiste em não querer ver. O que esta realidade nos mostra é que mais de 4
milhões dos eleitores inscritos ficaram em casa. A abstenção pode ser uma
atitude política mas tem que ter consequências. Quem se demite de escolher não
tem direito de passar a vida a queixar-se, por maior que seja o seu
descontentamento. Temos pena, mas a democracia não é delegável. É, isso sim, o
respeito pela vontade da maioria que se expressa e não pelos que preferem ficar
de pantufas.
9. Os outros que não os mesmos
Há um novo partido no Parlamento. O PAN, Partido dos Animais e da
Natureza, é o fenómeno do Facebook a entrar pela Assembleia da República
dentro. À custa do PAN ficaram à porta o Livre de Rui Tavares ou o PDR de
Marinho e Pinto. Quem frequenta redes sociais sabe que há cada vez mais quem
eleve ao topo das suas prioridades os animais com prejuízo das pessoas. Faz
sentido, sobretudo num país com tantos desempregados e onde os que foram
forçados a emigrar são mais de meio milhão. Não sei se todos os que votaram no
PAN têm consciência disto, mas julgo não andar muito longe da verdade se disser
que daqui a quatro anos - ou talvez menos -, os mais de 74 mil
"panófilos" estarão arrependidos do voto que desperdiçaram.
10. Uma boa notícia
A melhor notícia da noite foi que o PDR de Marinho e Pinto não entrou no
Parlamento. O ex-bastonário dos advogados é eurodeputado em Bruxelas e era lá
que queria continuar. Foi ele quem disse que não conseguiria viver em Lisboa
com 4800 euros. Por isso, concorreu por Coimbra quando as sondagens lhe diziam
que podia eleger deputados por Lisboa e Porto. O povo, que não é estúpido, pode
cair à primeira em balelas demagogas. Mas à segunda, manifestamente, só cai
quem quer (um trabalho do jornalista do DN-Lisboa, Nuno Saraiva, com a
devida vénia)
Sem comentários:
Enviar um comentário