segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Legislativas-2015: Nove histórias que ajudam a perceber a derrota de António Costa

Num artigo no "Público", Mariana Mortágua apela à calma, dizendo que "o tempo é de esperança e serenidade" e, afirmando esperar "que todas as forças políticas saibam estar à altura do desafio" . De tudo e para todos os gostos, cada um dos habituais opinadores dos jornais portugueses puxa a brasa à sua sardinha. As eleições deste domingo permitem todas as interpretações, desde a morte do PS ao nascimento da força do Portugal dos pequeninos. "Suceda o que suceder, uma coisa é certa: o Partido Socialista de Mário Soares deixou de existir como força agente e movente do regime democrático português. A derrota de António Costa foi a derrota de uma época." É assim, sem papas na língua, que Vasco Pulido Valente avalia a pretação dos socialistas nas eleições legislativas deste domingo e, em curtíssimas 15 linhas, acaba a sua opinião no "Público", afirmando que "daqui em diante, a vida política portuguesa, sem esse pilar central, será uma balbúrdia, com um futuro duvidoso".
João Miguel Tavares, também no "Público", avança com o que diz ser "a melhor solução para Portugal": "A queda de António Costa, a eleição de um líder ao centro no PS e a formação de um Bloco Central". Já Francisco Louçã prefere sublinhar a responsabilidade dos socialistas em "conjugar propostas" e diz que "a urgência ficou mais urgente".
Depois de aplaudir o discurso de Catarina Martins, convocando o PS para não viabilizar a minoria parlamentar de direita, Mariana Mortágua, reeleita deputada pelo Bloco de Esquerda, vem no "Público" invocar a calma, dizendo que "o tempo é de esperança e serenidade" e, afirmando esperar "que todas as forças políticas saibam estar à altura do desafio". Já Nuno Ramos de Almeida, que concorreu pelo Agir - Tempo de Mudança, que não elegeu nenhum deputado, garante que, "apesar da derrota o partido não desiste", porque "daqui a pouco tempo haverá novas eleições".
Vicente Jorge Silva, no "Diário de Notícias", vaticina que "uma dramática incerteza pesa sobre o futuro do país" e avança que "a mera derrota parlamentar do programa de Governo e do Orçamento da coligação de direita, que é possível antever para os próximos tempos, não garante por si só a esperança de uma alternativa política do PSD/CDS enquanto a esquerda portuguesa continuar a ser aquilo que é".
No mesmo diário, Viriato Soromenho Marques diz que "muito embora os eleitores tenham escolhido a continuidade sobre a mudança, a verdade é que o próximo Governo de Portugal tem de romper com o rumo dos últimos quatro anos se quiser impedir que o país tombe na completa indigência".
O que todos julgávamos impossível, aconteceu. António Costa conseguiu perder as eleições legislativas para o Governo que mais austeridade impôs ao país. Fez tudo ao contrário do que tinha prometido ao PS quando destronou António José Seguro. De lá para cá correu quase tudo mal. Esta é a história, em 9 capítulos, de uma derrota que começou a desenhar-se cedo
1. NA VARANDA DA CÂMARA COM VISTA PARA O RATO
Uma das principais acusações que Costa fazia a Seguro era que o então líder socialista só divergia do Governo de Passos Coelho na "dose e no ritmo" da austeridade. Costa bateu tanto nesta tecla – dizendo que “se pensarmos como a Direita acabamos a governar como a Direita” - que conseguiu primeiro minar o partido e depois virá-lo a seu favor. O resultado das Europeias serviu como argumento final: o PS tinha de mudar. E mudou – e ainda está por perceber se este “assalto ao poder” terá também tido efeito na derrota. António Costa tornava-se numa espécie de Messias. Os socialistas acreditaram que, com ele, estava encontrado o caminho para o poder. E absoluto. Não foi o que aconteceu. De lá para cá foi sempre a descer. As expectativas eram demasiado altas. Tudo o que prometera, e que acusava Seguro de não ter feito, ficou pelo caminho: nem maioria absoluta, nem um partido unido, nem um passado assumido (Sócrates). E o mais irónico: Costa também não acertou na “dose” nem no “ritmo”. Seguro ainda não apareceu. Estará “chocado” com o “poucochinho” alcançado pelo seu rival? Ana Gomes já manifestou o seu choque. Álvaro Beleza pediu reflexão profunda. Outros se seguirão. As feridas serão profundas.
2. UMA VEZ EM ÉVORA. E CHEGOU.
A prisão de Sócrates foi, talvez, o pior revés da liderança de António Costa. Se num primeiro momento o líder até soube agarrar o problema, a verdade é que a detenção do ex-PM e ex-secretário-geral socialista foi tóxica para a caminhada socialista. Costa e o partido ficaram enclausurados numa questão que, dia sim dia não, se sobrepunha à atividade e às mensagens políticas do líder. Sócrates tornara-se maior que o próprio PS. E Costa que sempre disse que Seguro não tinha sabido integrar o passado, também não soube afastar-se dele – e a direita explorou o mais que pode a ligação entre ambos. O processo judicial manchou o partido, mas foi a herança política da governação socialista que pesou mais. Por mais que dissesse que o seu programa era diferente e que nada tinha a ver com as “obras faraónicas” do ex-primeiro-ministro, António Costa embarcou na mesma narrativa sobre os anos da crise e da troika - e de quem a chamou. Ou seja, não conseguiu renovar a marca PS (mesmo nas listas para as legislativas), e isso foi-lhe fatal.
3. PALAVRA DADA (NÃO) É PALAVRA HONRADA
António Costa que tinha prometido aos lisboetas cumprir o mandato até ao fim, acabou por deixar a CML depois ter sido eleito líder do PS. Mas só ao fim de quarto meses, um tempo que o desgastou (e muito). Se a ideia era que a autarquia servisse de biombo até às legislativas, não resultou. As polémicas foram várias: as cheias de novembro, a criação de uma taxa de turismo, o aumento das tarifas da água, a proibição da circulação na Baixa dos automóveis com matrícula anterior a 2000, a isenção fiscal ao Benfica e, até, um discurso proferido aos chineses, tudo complicou a vida do autarca, mas sobretudo a do candidato a São Bento. Se na câmara tropeçava, como seria como primeiro-ministro? As comparações começavam a ficar perigosas para quem já ensaiava pedidos de maioria absoluta.
4. PRESIDENCIAIS À SOLTA
Ao dar gás à candidatura de Sampaio da Nóvoa – sem informar os órgãos do partido -, Costa entrou num beco sem saída. Nóvoa não era o candidato desejado e isso fez rachar o PS. Os “abrilismos” do reitor, mais as suas proclamações anti-partidos causaram mossa no Largo do Rato. O encosto à esquerda com aquela escolha foi considerado excessivo, e um sinal desnecessário naquela altura do campeonato. Mas já era tarde, o PS entrava em rebuliço e Nóvoa já pedalava pelo país em busca da popularidade que nunca teve. O tema presidenciais – por culpa da iniciativa (nunca assumida) de Costa – tomava conta de todas as conversas, relegando as Legislativas para segundo plano, quando deviam ser prioridade. E como um problema nunca vem só, Maria de Belém juntou à discussão o anúncio da sua candidatura. Confirmava-se: António Costa não tinha mão no partido. A direita nem precisou de falar. Bastou-lhe cruzar os braços e observar o PS a pegar fogo com um combate que ainda para mais só acontece em 2016. Mais uma vez, com as suas opções, ou falta de estratégia, Costa deixou-se fragilizar. Agora, com a sua derrota, a candidata que ele não queria pode sair fortalecida. E Sampaio da Nóvoa terá de continuar a dar ao pedal.
5. “UMA BRINCADEIRA DE CRIANÇAS”
A frase foi dita por Passos Coelho e foi a forma escolhida para reagir às intenções do recém-eleito Syriza. Costa já tinha reagido e com um declarado entusiasmo, antecipando (ou desejando) que aquela eleição ia trazer mudanças para a Europa. Como pode ter sido tão ingénuo? Ainda hoje é difícil compreender como é que o líder socialista quis aparecer, daquela forma, na fotografia dos radicais gregos. Costa já sabia, até pelo périplo que fez pela a Europa, que era suicida colocar na agenda temas como a renegociação da dívida– isso mesmo foi dito ao Expresso pelo seu amigo Ferro Rodrigues –, mas ainda assim acreditou que o Governo de Tsipras podia ser uma porta de entrada para uma nova era europeia. Não podia estar mais enganado. E depois o Partido Socialista, na sua génese e políticas, nada tem a ver com Syriza. É como se o PS comemorasse o Bloco de Esquerda, um partido que por sinal Costa até despreza. A “brincadeira” saiu-lhe cara, a colagem que foi feita do PS aos gregos foi estilo “super cola 3”: acaba por sair, mas demora e deixa marcas. Para a história, ficava mais um episódio do desnorte estratégico que tinha tomado conta do Largo do Rato. E à medida que ia apostando à esquerda (não esquecer a sua presença no congresso do Livre), ia perdendo lastro no centro - onde se ganham eleições.
6. O DISCURSO AOS CHINESES
Em fevereiro deste ano, António Costa, ainda na CML, dirigia-se a uma plateia de chineses e reconhecia que houve um “enfrentar e vencer a crise” e agradecia-lhes o “grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela que estava há 4 anos”. Este discurso deu brado: afinal o “bota-abaixismo” - como se lhe referiu Passos na campanha - de Costa reconhecia que nem tudo tinha corrido mal. Como líder da oposição, António Costa não acertou no tom - era mais certeiro na Quadratura do Círculo - e isso fez com que os eleitores não lhe dessem a confiança que tanto pediu. Ao mesmo tempo que descrevia aos investidores um Portugal melhor, aos portugueses falava de um pais negro, traçando um quadro tão negativo que muitos não se reviram. Costa não percebeu que, por causa da austeridade dos últimos quatro anos, os portugueses foram obrigados a mudar as suas vidas, adaptaram-se. E, por isso, não estiveram disponíveis para novas experiências, receando passar por tudo outra vez. Assim sendo optaram pelos que lá estão, já os conhecem. Mais uma vez o discurso do PS foi errado. Mais valia ter apostado no retrato que fez aos chineses: reconhecendo que nem tudo foi mau, e que há melhorias, mas prometendo, a partir de agora, fazer de outra forma. Isso sim seria uma alternativa. Pela positiva.
7. UM CENÁRIO-ARMADILHA
Todos lhe pediam propostas concretas e Costa fez-lhes a vontade. Em março apresenta o tão elogiado cenário macro-económico (que depois não soube converter em bandeiras para a campanha). Um plano de pormenor, uma espécie de Orçamento de Estado, que punha o PS, o challenger, num patamar nunca antes visto num partido na oposição: medidas com contas certas - em contraste com a aridez do programa(?) da coligação. O plano, de Mário Centeno - que apostava sobretudo no estímulo à procura interna como solução para pôr fim à austeridade -, foi analisado dos pés à cabeça e percebeu-se a sua tendência liberal, com propostas alinhadas com as da direita - redução da TSU com congelamento das pensões - e outras que iam até mais longe: contrato único. Tendo sido uma boa iniciativa, deu polémica. No Rato. No país. Na estratégia do líder. Aquele cenário tornava-se o alfa e mega da discussão política. O escrutínio foi tal que os papéis pareciam inverter-se: como se Costa fosse o primeiro-ministro e o governo a oposição. De justificação em justificação, para dentro e para fora, o líder socialista desgastava-se. Depois vieram os sinais contraditórios, um ziguezague que se acentuou na campanha: um dia à esquerda, outro ao centro, responsável - e até acusado de importar liberais de Harvard. Ao mesmo tempo que garantia, com o plano dos economistas, querer governar respeitando o tratado orçamental e os compromissos com Bruxelas - o líder socialista percebeu que as proclamações anti-austeridade, em choque com as instituições europeias, não dão bom resultado -, e porque precisava de se afastar do modelo de governação de Sócrates, Costa, sem sentido contrário, também radicalizava o discurso. Parecia desespero. Chegou mesmo a acenar com a maioria de esquerda parlamentar, com um governo com o Bloco de Esquerda e com o PCP(?). Como se não importasse o impacto que isso teria em Bruxelas e nos mercados. E nos portugueses. Resultado: assustou o centro e tornou-se carne para o canhão da direita. Percebeu-se, e o cenário macro-económico ajudou, que se fosse para o poder não ia conseguir fazer muito diferente. A margem é demasiado estreita. E mal por mal, os portugueses voltaram a preferir a segurança (?) da coligação. Ou seja, deram um PàF ao PS.
8. OS MURROS NA MESA. E NO ESTÔMAGO SOCIALISTA
Em plena campanha, quando as coisas já não estavam a correr bem, Costa ofereceu as munições que a direita precisava para escavar, ainda mais, a tese do “aventureirismo” da oposição. Como líder de um partido de governo, responsável e europeista, Costa errou ao anunciar que não só chumbava o Orçamento do Estado como não deixaria passar o programa de um governo minoritário de direita. Os alarmes soaram: Costa optava pela instabilidade. A coligação explorou o medo: “depois de tudo o que passamos querem voltar para trás!”. E nem todo o PS gostou. Ao invés de traçar linhas vermelhas e aceitar o diálogo - destrunfando a coligação -, Costa preferiu cortar a direito - embora depois viesse corrigir o que tinha dito. E deixou que Passos se assumisse como um político com sentido de Estado e que dialoga com todos (“mesmo que perca”). A estratégia estilo Galamba ganhava força, mas o PS perdia. No Rato abria-se mais uma fenda, e profunda. “Não é à esquerda que se ganha”. Já no congresso de Lisboa, Francisco Assis tinha batido com a porta indignado com a esquerdização que o partido ensaiava. Só que este também não foi um caminho 100% assumido pelo líder. É que um dia falava à Bloco de Esquerda, no outro chamava ao discurso a sua experiência de autarca que sabe fazer pontes. O eleitor moderado confundia-se (ou assustava-se?). Nesta altura, Costa já estava fragilizado, a atrapalhação na resposta com as “poupanças” nas prestações sociais não contributivas intoxicou o debate. Afinal, tal como a direita, o PS também cortava, e pior, o líder não sabia explicar as suas próprias contas. Esteve cinco dias enredado em justificações. Cinco dias em cima das brasas que a dupla Passos/Portas ia atiçando. O PS tornou-se no epicentro da campanha. António Costa ainda se agarrou aos défices, ao Novo Banco, ao desemprego; mas a coligação, mesmo em bluff, estava em all in. E Costa não soube virar o jogo.
9. UMA CAMPANHA À ANTIGA

Não há divida que António Costa conseguiu surpreender tudo e todos. Como é que um “politicão” com tantas provas dadas conseguiu uma performance tão errática? O que se terá passado? Talvez nunca saibamos o que verdadeiramente aconteceu, mas há algumas explicações que podem já ser apontadas. Desde logo uma equipa descoordenada e desatualizada. E responsável por erros primários: desde os cartazes do desemprego até à obsessão pelas arruadas – que hoje se resumem à máquina partidária. A coligação, que tinha de fugir à rua, fez dessa fraqueza uma força. Concentrou-se na mensagem, criou uma marca - PàF - que se sobrepunha as siglas PSD/CDS, apostou na dupla Passos/Portas e fez dessa união, pela positiva, o grande mote da campanha. Mas mais importante, montou uma história simples que repetiu. Costa, pelo contrário, perdeu-se nas reações, nas promessas, nas contas. Falava de tudo. Sempre ele. Sempre muito sozinho. Os focus group e as sondagens determinaram que o líder valia mais do que o PS e isso colocou-o na primeira linha do ataque. E do desgaste. Politicamente, não conseguiu delimitar o seu espaço. Perdeu para a esquerda. Com o Bloco a afirmar-se, como se viu nos resultados, o seu maior problema. E ao centro, no mesmo terreno da coligação, não conseguiu motivar. Agora com este desaire abre-se uma ferida. O PS já teve outras, mas esta tem uma agravante: a forma como o ex-líder foi destronado depois de duas vitórias. Costa não se demite, ao contrário do que exigiu a Seguro: “Temos de perceber que, quando o resultado é mau a culpa não é das estrelas, é de nós próprios.” (texto do jornalista doExpresso, Bernardo Ferrão, com a devida vénia)

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