Contas do Estado para 2016 serão o próximo teste entre Governo e PS. Costa deverá viabilizar mas Passos terá de ceder em alguns pontos. Táctica política vai marcar a legislatura. No rescaldo das eleições que deram a vitória à coligação Portugal à Frente sem maioria absoluta, o dia de ontem foi o primeiro de muitos de um verdadeiro jogo de táctica política que vai dominar o Parlamento, o Governo e o PS. Foi o dia em que os dois partidos da coligação reuniram os seus respectivos núcleos-duros para acertar estratégias face a uma minoria no Parlamento e para definir o acordo de Governo que vão levar ao Presidente. E que inclui "algumas cedências" para uma aproximação aos socialistas.
Passos e Portas sabem que a partir de agora precisam do PS para viabilizar o Orçamento e algumas reformas. António Costa sabe que, se criar instabilidade e derrubar o Governo, ficará com o ónus de uma crise política e com menos hipótese de ganhar em eventuais eleições antecipadas. É neste jogo de forças que se fará política nos próximos meses e cada táctica será delineada com ‘pinças'. Ultrapassada a prova de vida do OE/16, o Governo terá de tentar acordos pontuais para outras reformas. Na coligação não se acredita que o acordo a fazer com Costa seja "global", como era a preferência do Presidente da República. "Vai ser caso a caso", diz um dirigente do PSD.
Passos deverá "falar com Costa muito em breve" e terá de "fazer alguma aproximação e cedências" para conseguir a viabilização do próximo Orçamento do Estado. Na noite eleitoral, Costa deixou um caderno de encargos a Passos mas o primeiro-ministro - que mostrou abertura a consensos - deixou claro que não vai afastar-se da sua principal meta, cumprir a meta do défice de 3%. Apesar de ter garantido que não entrava em "coligações negativas", Costa fez questão de manter a espada sobre a cabeça do novo Governo: se houver uma "maioria construtiva de esquerda", derrubará o Executivo.
Mas os politólogos entendem que António Costa, nesta fase, "não tem muita margem para insistir na pressão" porque sabe que, se criar instabilidade, será prejudicado nas urnas (isto se se mantiver à frente do PS até às próximas eleições, antecipadas ou não).
"O [partido] que revelar maior sentido de Estado e que colocar a estabilidade acima de tudo é o que ganha", resumia ontem um dirigente da coligação, dando corpo à táctica política que já está no terreno. Ainda está na memória de muitos o que aconteceu em 1987, em que o PRD forçou a queda do Governo de Cavaco Silva e, meses depois, este ganhava as eleições antecipadas com maioria absoluta e o PRD desaparecia do mapa político.
O novo governo minoritário PSD/CDS, a que Cavaco deve dar posse, traz consigo uma série de riscos, sendo o seu derrube o principal. O figurino que saiu destas eleições acrescenta uma particularidade: o Governo é minoritário com uma maioria de esquerda no Parlamento. Além de precisar de apoios, as bancadas do PSD e CDS não poderão nesta legislatura mostrar qualquer desunião ou incluir dissidentes nas votações. Esta será uma prova de fogo para as duas lideranças dos partidos e também para os novos líderes parlamentares (texto da jornalista do Económico, Inês David Bastos, com a devida vénia)

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