Há muito que trabalhar para que o enunciado geral revelado pelo PCP desça ao detalhe. E já há gente dos dois lados a tratar disso. O "caderno de encargos" ontem revelado por Jerónimo de Sousa para um acordo político com o PS (ver texto ao lado) revela muito mais pontos de convergência do que de divergência com o programa eleitoral dos socialistas. Segundo o DN apurou, já há equipas técnicas dos dois partidos a analisar conjuntamente, ponto a ponto, as várias matérias em causa, para que tudo passe para lá da fase um simples enunciado geral de princípios. É nos detalhes que podem residir os principais problemas. Veja--se, por exemplo, o caso das taxas moderadoras do Serviço Nacional de Saúde. O PCP é - sempre foi - pela sua eliminação pura e simples. Mas o PS não. Defende que o peso das taxas moderadoras no financiamento global do SNS é excessivo - mas admite, em geral, que existam. O que propõe é taxas moderadoras diferentes, através de políticas que discriminem positivamente crianças, mulheres em idade fértil, idosos e pessoas dependentes. Aqui, impõe-se uma negociação.
Como também no que toca ao valor das pensões de reforma. Os comunistas querem que estas tenham um aumento "real" - ou seja, um aumento acima da inflação. Já o PS fala em "congelamento", o que significa que não pretende mexer no seu valor nominal. É uma ideia que joga também, segundo o próprio António Costa já explicou, com o facto de não se esperar uma inflação relevante nos próximos tempos (há até quem admita proximamente uma situação de deflação - inflação negativa - com o custo de vida genericamente a descer, pelo que mantendo-se os valores nominais atuais das pensões os pensionistas até poderiam ganhar poder de compra). O outro problema entre o PS e o PCP é o da fiscalidade sobre os grupos financeiros. Os comunistas defendem, há muito, que por exemplo a fiscalidade sobre a banca ou sobre as transações bolsistas aumente. Neste capítulo a ideia de referência é a chamada "taxa Tobin": taxar todas as transações financeiras numa percentagem previamente determinada.
Ora no programa do PS nada está previsto nesta matéria. O documento diz apenas que "a supervisão do setor financeiro deve não só assegurar uma fiscalização mais apertada das instituições de crédito como evitar, à partida, a ocorrência de situações de captura económica, conflitos de interesses e interdependências potenciadoras de risco sistémico". Tudo recomendações que nasceram das lições do caso BES.
Na questão do salário mínimo nacional também há problemas a resolver: o PCP propõe 600 euros já em 2016; o PS não se vincula a nenhum valor, defendendo apenas que deve ser aumentado. Há ainda outros aspetos na posição do PCP que estão por esclarecer: até agora tinha sempre recusado a proposta socialista de diminuir os descontos para a Segurança Social dos trabalhadores e das empresas; e não quer nem ouvir falar em propostas que flexibilizem o despedimento - e o PS tem uma proposta nesse sentido.
Do lado comunista já caíram, como imposições, ideias que tornariam um acordo com o PS completamente impossível: saída do euro, da Nato, controlo público da banca, renegociação radical da dívida pública, recusa liminar do Tratado Orçamental, subscrito pelo PS (DN-Lisboa, texto do jornalista João Pedro Henriques)
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