terça-feira, 6 de outubro de 2015

Passos é o primeiro líder de um país sob programa a ser reeleito

Depois de quatro anos de austeridade, sob vigilância apertada da troika, Passos Coelho volta a vencer as legislativas. Cenário de maioria absoluta não está excluído. Portugal pode vir a ser um case study. "Se após quatro anos de austeridade, a coligação vencer com uma maioria muito expressiva próxima da maioria absoluta, Portugal pode transformar-se num case study", afirmou ao Económico o professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais (ICS), António Costa Pinto. 
Passos tomou posse em 2011, com os credores internacionais instalados em Lisboa a acompanharem a execução do programa de ajustamento económico e financeiro.
A taxa de desemprego atingiu mais de 17% da população activa e a economia regrediu durante três anos seguidos. As pensões foram cortadas, os salários da Função Pública reduzidos e os impostos sofreram o maior aumento de sempre.
Na recta final da campanha, quando todas as sondagens apontavam para uma vitória da coligação que está no governo, o Económico falou com o politólogo António Costa Pinto para tentar perceber o que significava a vitória do partido que liderou a execução de um programa de austeridade.
"Se os resultados forem próximos das sondagens [feitas durante a campanha], ou seja, uma vitória de cinco ou seis pontos face ao PS, os resultados são explicáveis. O PS não conseguiu captar os votos à esquerda e a coligação recuperou uma parte do seu eleitorado", disse Costa Pinto.
Até esta hora ainda não há resultados finais, mas com 82% das freguesias apuradas, a vitória da coligação é certa, a maioria absoluta ainda está em cima da mesa, e a distância face ao PS é de cerca de nove pontos.
Outra coisa é se PSD/CDS ficarem perto da maioria absoluta - uma possibilidade que a esta hora ainda está em cima da mesa. "Significa que os partidos políticos têm ainda uma capacidade de enquadramento muito forte sobretudo no campo da direita", admite o politólogo.
Já se o cenário de maioria absoluta se verificar "precisa de explicações", mais relacionadas com "a cultura política e os valores da sociedade portuguesa - motivos mais psicológicos".
O professor do ICS lembra que, durante estes quatro anos de troika, "houve quebra dos contratos sociais e os rendimentos de uma forma abrupta".
Se Passos vencer, mas sem ficar perto da maioria absoluta - que obriga a eleger 116 deputados - não deixa de ser o primeiro país intervencionado a reeleger a força política do Governo, mas já terá menos características para se tornar um caso objecto de estudo nas aulas de ciência política.
Nesse caso, "eventualmente [será] menos um case study. Aponta mais para a estrutura clássica da sociedade portuguesa. Há um núcleo duro do eleitorado que vota não apenas pelo voto económico", explica o politólogo. Ou seja, decide em quem vota por razões ideológicas. Para António Costa Pinto, a vitória da coligação terá resultado de vários factores: "os últimos sete meses com alguns indicadores económicos positivos e uma recuperação económica que já atinge alguns elementos da sociedade". "A isto, a coligação juntou a estigmatização do PS", acrescentou (Económico, texto da jornalista Marta Moitinho Oliveira)

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