"Espanha está a crescer o dobro [do que Portugal]. E o pior exemplo de
todos, que é sempre dado, é o da Grécia. Sabe que a Grécia no último trimestre
cresceu o dobro do que cresceu Portugal. E relativamente ao ano passado,
Portugal cresceu 1,5% e a Grécia 1,9%”
António Costa, na entrevista à RTP a 10 de setembro de 2015
A tese
O secretário-geral do Partido Socialista, António Costa, afirmou na
entrevista à RTP de quinta-feira que Espanha está a crescer ao dobro de
Portugal. E que Portugal cresceu menos do que a Grécia não só na comparação
homóloga mas, sobretudo, no segundo trimestre.
Os factos
É absolutamente verdade – e não é de agora – que o crescimento económico
em Espanha é muito superior não só ao de Portugal mas, também, a boa parte da
zona euro, como analisámos num texto publicado em maio com o título “Aqui ao
lado, a economia cresce o dobro do resto da Europa. Porquê?“. O PIB em Espanha
disparou 3,1% na comparação homóloga e 1% no segundo trimestre face ao
trimestre antecedente. É, também, correto dizer que a Grécia cresceu mais do que Portugal no
segundo trimestre – a diferença até é maior do que o líder do PS indicou, já
que segundo o Eurostat a Grécia cresceu 0,9% na comparação em cadeia e Portugal
0,4%, não 0,5%. Na comparação homóloga, os dados do Eurostat não são tão
positivos para a Grécia como diz António Costa. Portugal cresceu, sim, 1,5% mas
a Grécia 1,6%, e não 1,9% como disse Costa. De qualquer forma, os dados respeitam a tendência que se verifica. Mas é
aqui que devemos dar dois dados de enquadramento importantes. O primeiro está
ligado ao conhecido efeito base. Numa economia que afundou tanto quanto a
Grécia, mais de 25% desde o início da crise, uma pequena recuperação nominal
facilmente leva a uma melhoria percentual mais elevada.
Depois, há um segundo dado muito importante que afeta, sobretudo, a
comparação trimestral. É que no segundo trimestre, entre abril e junho, a crise
económica e financeira agudizou-se à medida que credores e governo continuavam
longe de um acordo para o terceiro resgate. O impasse levaria à imposição de
controlos de capitais na Grécia no final de junho. E havia, é claro, o risco de
saída do euro.
Mas o risco de que fossem aplicados controlos de capitais, como tinham
sido aplicados em Chipre, já estava a ser identificado há vários meses pelos
especialistas. Perante essa hipótese, existiram vários relatos de gregos que
optaram por usar dinheiro que tinham no banco para comprar mantimentos e bens
duradouros como eletrodomésticos. Dessa forma, conseguiam assegurar valor, não
só para se anteciparem ao risco – que se confirmou – de que veriam o dinheiro
imobilizado ou de que poderiam ver os seus euros convertidos em dracmas. Vários economistas disseram que foi muito graças a esse efeito que a
economia grega cresceu de forma surpreendente no segundo trimestre, como
noticiámos na altura.
Conclusão
Esticado. Não há dúvida que, na comparação com a Grécia, António Costa
deu números que, apesar de não totalmente corretos, respeitam a tendência que
se verificou no segundo trimestre. No entanto, há que enquadrar estes dados com
o efeito base de uma economia – a grega – que afundou 25% em poucos anos e, por
outro lado, que teve um impulso no segundo trimestre com os consumidores a
levantarem dinheiro e comprarem mantimentos e bens duradouros perante o risco
de controlos de capitais e de saída da zona euro. São dois elementos de enquadramento
muito pouco invejáveis (Observador)
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