Três homens e três
mulheres estão isolados há uma semana numa estrutura a 2,5 quilómetros de
altitude, no Havai, onde vão ficar fechados durante um ano. É a terceira fase
do projeto da NASA que simula a primeira missão humana no planeta vermelho. Ainda
Cristo não era nascido e já os olhos dos homens estavam postos em Marte. Sendo
um dos planetas mais próximos de nós - em maio do próximo ano estará a “apenas”
75 milhões de quilómetros -, o seu brilho é facilmente visto no céu noturno.
Mas foram os telescópios terrestres, as sondas e os robôs que mais revelações
fizeram e aguçaram a curiosidade sobre aquele que é talvez o planeta mais
citado na literatura, na música e no cinema. Quem nunca ouviu falar do romance
“A Guerra dos Mundos”, em que marcianos invadem a Terra e destroem a
humanidade, escrito em 1898, por H. G. Wells e dramatizado, 40 anos mais tarde,
por Orson Welles, num programa de rádio que provocou o pânico em milhares de
pessoas?
Sabemos que Marte
tem cerca de metade do diâmetro da Terra, tem água (embora escassa), já teve
uma atmosfera quase igual à terrestre em termos de percentagem de oxigénio, tem
aproximadamente 1/3 da gravidade da Terra, a sua superfície é rochosa, tem duas
luas... só falta mesmo lá ir em carne e osso. É esse aliás o maior objetivo e
desafio tanto da agência espacial norte-americana (NASA) como da europeia
(ESA). Com a perspetiva
de enviar os primeiros seres humanos a Marte, na década de 2030, a NASA
desenvolveu uma missão de exploração - Hi-Seas (Hawaii Space Exploration Analog
and Simultaion) -, que já teve duas fases, uma que durou quatro meses e outra
oito.
Na sexta-feira
passada iniciou-se a terceira etapa, a mais longa, que vai durar 356 dias. Com
base nas conclusões das missões anteriores foram selecionados Sheyna Gifford,
Tristan Bassingthwaighte, Carmel Johnston, Andrzej Stewart, Cyprien Verseux e
Christiane Heinicke, de diferentes nacionalidades (quatro americanos, um
francês e um alemão) e com as profissões mais variadas (jornalista, piloto,
arquiteto, cientista, astrobiólogo e físico). O objetivo é estudar e trabalhar
o desempenho e a coesão da tripulação, de maneira a desenvolver estratégias
eficazes que permitam no futuro viajar até Marte e regressar com sucesso, uma
vez que uma viagem dessas demorará no mínimo três anos.
UMA ESPÉCIE DE
“BIG BROTHER” MARCIANO
A equipa vai viver
- ou melhor, já está a viver - numa espécie de cúpula com 11 metros de diâmetro
e seis de altura, localizada 2500 metros acima do nível do mar, no vulcão Mauna
Loa, no Havai, um local terrestre com um ambiente muito parecido com o
marciano. Serão vigiados por câmaras, mapeadores de movimentos do corpo, entre
outros métodos, de forma a que os investigadores que os acompanham do lado de
fora possam recolher dados de uma ampla gama de fatores cognitivos, sociais e
emocionais, que podem afetar o desempenho e a dinâmica da equipa.
Dentro da cúpula
cada elemento terá uma pequena divisão com uma cama e uma mesa/secretária, a
alimentação é com base em comida liofilizada, a comunicação com o exterior é
feita por via eletrónica e com um atraso de 20 minutos (para a simulação ser o
mais real possível) e as idas ao exterior serão sempre realizadas com um fato
especial, como os dos astronautas, exatamente como se estivessem em Marte (pode
ver AQUI um vídeo com todas as explicações sobre a vida na cúpula). Cada um dos
elementos terá várias funções, sendo certo que haverá muitas tarefas a cumprir
fora do complexo.
Será esta a
realidade daqueles seis seres humanos durante um ano. 365 dias sempre com as
mesmas pessoas, num espaço confinado, praticamente sem privacidade, sem poder
apanhar ar fresco ou saborear um bife suculento. Por mais
entusiasmo e preparação que haja, os desafios psicológicos são enormes. “A
reação das pessoas a uma situação destas é processada de uma forma muito
individual, ou seja, as características de personalidade levam a resultados
diferentes de pessoa para pessoa”, começa por explicar o psicólogo Rui Ribeiro.
Mas uma alteração radical e abrupta do dia-a-dia normal de cada um dos elementos
cria desafios em termos individuais, e sobretudo de relacionamento.
“Vão deixar de
estar com as pessoas do seu círculo familiar e de amigos, para estarem de forma
continuada com outras cinco pessoas que provavelmente conhecem de uma forma
superficial e num espaço relativamente exíguo. É natural que numa fase inicial
da evolução deste grupo exista reserva de exposição de cada um numa tentativa
de conhecer melhor os outros e atribuir a cada um determinado papel no grupo e
com ele se estabelecer um padrão de comunicação. Mas os conflitos nos grupos
são inevitáveis”, acrescenta o psicólogo.
Aliás, essa foi
uma das lições retiradas da missão anterior, a que durou oito meses, como
reconheceu Kim Binsted, investigadora chefe do projeto Hi-Seas, assumindo que
“a tripulação fica stressada, alguns com sinais de depressão”. Kim explica no
entanto que um dos objetivos desta etapa é precisamente “compreender os fatores
sociais e psicológicos envolvidos numa exploração de longa duração e dar à NASA
dados sólidos sobre a melhor forma de selecionar e apoiar uma tripulação de voo
que terá de trabalhar de forma coesa, em equipa, enquanto estiver no espaço”. Rui Ribeiro realça
que “o importante é o modo como o grupo vai gerir e resolver os conflitos.
Poderíamos perspetivar que a qualidade do relacionamento entre os diversos
elementos daquele grupo está diretamente relacionada com a qualidade com que
lidarem e resolverem os conflitos entre eles, tal como acontece nos grupos
reduzidos, como por exemplo os casais, ou nas equipas de trabalho numa
organização. Variáveis individuais como a personalidade e as motivações e as
características do grupo, como heterogeneidade, complementaridade, entre os
elementos, vai moderar a emergência e resolução dos conflitos”. Recuando no tempo,
e salvo as devidas diferenças, podemos imaginar que, por altura dos
Descobrimentos, os portugueses passaram pelo mesmo tipo de problemas de
relacionamento e stress psicológico. Afinal, também eles tiveram de permanecer
meses seguidos fechados dentro de uma caravela, em alto mar, sem saber muito
bem qual o destino final (Expresso)



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