O urso polar mais famoso do mundo viveu até aos quatro
anos no Jardim Zoológico de Berlim, na Alemanha. A 19 de Março de 2011, o
pequeno Knut caiu à água, depois de ter sofrido um ataque epiléptico, e
afogou-se aos olhos dos visitantes do zoo. A morte inesperada não tinha tido
até agora causa conhecida. Quatro anos passados, um cientista alemão foi
recuperar o relatório da autópsia e, num estudo com outros colegas, concluiu
que o urso Knut sofria de uma doença auto-imune, até agora só encontrada em
humanos. Esse terá sido o motivo da encefalite de que sofria Knut, e que
desencadeou o ataque epiléptico e consequente morte. Ao ler o relatório da autópsia, Harald Prüss, do Centro
Alemão para Doenças Neurodegenerativas, em Berlim, identificou semelhanças
entre resultados dos seus estudos em doenças do cérebro humano e aquilo que
aconteceu ao urso Knut. O neurocientista resolveu contactar Alex Greenwood,
coordenador do Departamento de Doenças da Vida Selvagem do Instituto Leibniz,
em Berlim, que já havia estudado a morte de Knut, sem no entanto ter descoberto
a sua causa. Colocava-se agora a hipótese de o animal, cuja espécie
apresenta uma esperança de vida de cerca de 30 anos, ter sofrido uma doença
auto-imune do cérebro. E foi precisamente essa a conclusão do estudo dos dois
cientistas, publicado esta quinta-feira na revista Scientific Reports.
“Até agora, só se conheciam doenças auto-imunes [do
sistema nervoso] em humanos. Nesta doença, o sistema imunitário do corpo reage
e produz anticorpos que vão danificar as células nervosas [numa reacção
auto-imune], em vez de lutarem contra os agentes patogénicos”, explica num
comunicado de imprensa Harald Prüss. “Ataques epilépticos, alucinações e
demência estão entre os possíveis sintomas.”
A doença chama-se encefalite anti-receptor NMDA, e só
há poucos anos foi descoberta em humanos. Knut é o primeiro caso diagnosticado
em animais. De acordo com Harald Prüss, os doentes com encefalite (uma
inflamação no cérebro), à qual não era atribuída nenhuma causa vírica ou
bacteriana, permaneciam sem diagnóstico. E foi também isto o que aconteceu com
o urso Knut, o primeiro caso agora diagnosticado em animais.
“Nos últimos anos, o número de casos não resolvidos
decresceu consideravelmente. Desde 2010 que temos vindo a identificar a
encefalite anti-receptor NMDA na maior parte dos doentes com encefalite de
etiologia desconhecida, quando não existe uma causa infecciosa.”
A equipa analisou amostras de tecido cerebral do urso
polar onde detectou altas concentrações de anticorpos dirigidos ao receptor
NMDA, uma estrutura presente nas células nervosas e que desempenha importantes
funções para a plasticidade sináptica (as conexões entre os neurónios) e a memória.
O diagnóstico foi confirmado em ratos com um teste de imunomarcação, que
mostrou que estes anticorpos se comportavam no cérebro dos roedores de forma
semelhante à que era verificada em humanos com encefalite anti-receptor NMDA.
“Ficámos muito intrigados com os resultados”, diz Alex
Greenwood. “A encefalite anti-receptor NMDA foi descrita em humanos muito
recentemente. É claro que a doença também é importante para outros mamíferos.
Estamos aliviados por finalmente ter desvendado o mistério da doença do Knut,
sobretudo porque a descoberta pode ter aplicações práticas.”
Estrela mediática
O urso polar Knut nasceu em 2006, a 5 de Dezembro, no
Jardim Zoológico de Berlim, com um irmão gémeo. Por razões desconhecidas, a
mãe, uma ursa que pertenceu a um circo na Alemanha do Leste chamada Tosca,
rejeitou as crias, abandonando-as num rochedo do recinto onde se encontravam.
Os dois ursos bebés foram resgatados pelos tratadores com uma cana de pesca,
mas o irmão de Knut não resistiu a uma infecção que lhe trouxe a morte quatro
dias depois. Em mais de 30 anos, Knut foi o primeiro urso polar a nascer e a
sobreviver no Jardim Zoológico de Berlim.
O tratador Thomas Dörflein cuidou do pequeno órfão,
dedicando-lhe todo o tempo que um bebé necessita, de dia e de noite, dormindo
ao seu lado num colchão improvisado. Muitos visitantes iam de propósito vê-los
a brincar e Knut tornou-se conhecido além-fronteiras.
Premiado com a Medalha de Mérito de Berlim pela
dedicação a Knut, Thomas Dörflein, de 44 anos, acabou por não resistir a um
ataque cardíaco em Setembro de 2008. A sua morte levou à transferência de Knut
para um recinto maior do jardim zoológico, onde viviam três ursas mais velhas –
o local em que Knut viria a morrer.
As encefalites são comuns em animais selvagens cativos
ou domésticos, mas a sua causa é na maior parte das vezes desconhecida. Os
resultados da equipa alemã vêm provar que esta doença auto-imune existe também
nos animais e sugere ainda que possam existir outras formas de encefalites
auto-imunes conhecidas para os humanos.
“Se o tratamento actual para humanos se adequar a
animais selvagens, muitos casos de encefalite fatal que ocorrem nos jardins
zoológicos poderão ser prevenidos”, acrescenta ainda Alex Greenwood. “[Os
resultados] trarão novos métodos de abordagem de encefalites em animais
selvagens e domésticos, particularmente importantes para espécies com alto
valor de conservação, como os ursos polares ou os rinocerontes”, lê-se ainda no
artigo científico.
Andreas Knierim, director do Jardim Zoológico de
Berlim e que não esteve envolvido no estudo, fala da relevância deste trabalho
para a medicina veterinária: “Os resultados do estudo são uma importante
contribuição para a compreensão de doenças auto-imunes do sistema nervoso em
animais. Congratulemos os investigadores, que tornaram possível que, no futuro,
doenças similares à do Knut noutros animais possam ser diagnosticadas mais cedo
e tratadas.” (texto da jornalista do Público, CATARINA ROCHA e editado por
Teresa Firmino, com a devida vénia)









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