Cristina Mendes, 36 anos, nove na Carris, duas filhas, tem de
gerir o tempo dos horários da transportadora, dela e do marido, também
motorista na empresa. Quando é necessário, as crianças ficam com os avós. Ouviu numa manhã na rádio um anúncio da Carris a pedir
motoristas e guarda-freios. Nesse dia telefonou ao marido e candidataram-se.
Ela pensava conduzir elétricos mas hoje diz que ainda bem que se ficou pelos
autocarros. Já lá vão nove anos.
Acordou às 3.40, era noite cerrada ainda, e às 5.15 Cristina
Mendes já estava sentada ao volante do Volvo que lhe calhou: a "chapa
4" do autocarro 756 era a sua para esse dia de trabalho. Anda nisto há
quase nove anos, para trás e para a frente na cidade de Lisboa a transportar
pessoas, com uma folha limpa de acidentes. E tudo por causa de um anúncio que
ouviu numa manhã na rádio.
Aos 36 anos, está desde 2006 na Carris. "Ouvi um anúncio
na Rádio Comercial, a Carris estava a pedir motoristas, também para os elétricos.
Ofereciam formação e a carta", conta ela, que não tinha experiência
nenhuma de conduzir pesados, só guiava o seu carro ligeiro, e trabalhava na
assistência técnica de uma operadora de telecomunicações. Telefonou ao marido e
decidiram os dois candidatar-se. Ele foi chamado em março, ela em setembro.
Não está arrependida. Hoje "só não faço elétricos",
diz, "e ainda bem", acrescenta apressada, apesar de lhe terem dito
inicialmente que podia ir para guarda-freio ("nem sabia o que isso
era"). "Tiveram necessidade de chamar motoristas para os autocarros,
e vim." Os elétricos são mais difíceis de manobrar do que parece, não são
nenhum brinquedo. E os passageiros quase se colam ao guarda-freio, em elétricos
que transbordam à cunha de turistas e lisboetas.
Às 08.29, quando Cristina (o C. da placa que tem ao peito, onde
só se revela o apelido) arranca o seu 756 para mais uma viagem entre a Rua da
Junqueira e as Olaias, as conversas são estremunhadas e sobre um tema: as
demoras dos autocarros. Não é o caso deste. É dia de semana, mas o ritmo da
cidade já vai sendo de férias e o horário será cumprido sem sobressaltos
atravessando Alcântara, Avenida de Ceuta, Praça de Espanha, Avenida de Berna,
Campo Pequeno, Areeiro e, por fim, as Olaias.
Há duas escolas que já há anos fecharam portas junto ao
terminal do autocarro na Junqueira - antes era um articulado, "veículo
longo" que fazia as vezes desse percurso. Agora já não é preciso, apesar
da proximidade do Hospital Egas Moniz e da antiga FIL. Os 35 lugares sentados servem
perfeitamente: há 12 passageiros ao início da viagem, mas até ao Campo Pequeno
entrarão sempre mais do que saem. Composto mas sem abarrotar, só o fotógrafo
que acompanha a reportagem do DN foge à rotina da viagem. "É um
profissional", constata um homem para o amigo, imediatamente antes de
tocar para saírem. Estamos na Avenida de Ceuta e distribui-se metadona numa
carrinha. É aí que eles vão.
O dia para Cristina começa bem cedo, pelas cinco da manhã. No
dia em que a reportagem do DN a acompanhou, o autocarro que lhe estava
atribuído era o 756, que faz o percurso entre a Rua da Junqueira e as Olaias,
em Lisboa
O dia para Cristina começa bem cedo, pelas cinco da manhã. No
dia em que a reportagem do DN a acompanhou, o autocarro que lhe estava
atribuído era o 756, que faz o percurso entre a Rua da Junqueira e as Olaias,
em Lisboa Fotografia © Álvaro Isidoro / Global Imagens
Cristina Mendes não tem histórias complicadas para contar.
Neste 756 ou no 725, que conduz entre o Oriente e a Portela. Não anda sempre
nos mesmos percursos, também lhe calha circular com o 755, do Poço do Bispo a
Sete Rios. Só não faz a "rede da madrugada", autocarros que a Carris
tem a circular durante todas as noites e madrugadas. Mas não fazer madrugadas é
quase força de expressão: no dia seguinte entra ao serviço às 04.50. "É
diferente. Apanho sobretudo as pessoas que vão trabalhar", quase tão cedo
como ela.
Muitas vezes os protestos de passageiros nascem com os pequenos
atrasos, para quem precisava de apanhar o autocarro ao minuto certo para depois
correr para o transporte seguinte. Como na profissão de motorista. "Aqui
não existe o telefonema a avisar o chefe "vou mais tarde"",
explica. "É à hora, naquele local", que se tem de estar para entrar
ao serviço, para render um outro motorista.
Também por isto há motoristas que estão "às ordens",
sem carreiras atribuídas, prontos para qualquer eventualidade. Nesse dia,
Cristina deixará o serviço às 12.04, no Areeiro. Um eventual atraso de quem a
fosse render poderia atrasar tudo e todos.
No "25" (os passageiros mantêm o hábito de comer o 7
aos números acrescentados há anos às carreiras, quando a empresa reorganizou a
rede), "as pessoas acabam por se conhecer", conta Cristina. Há
sobretudo reformados que metem conversa, por entre as curvas do percurso.
"Querem saber o nosso nome", e comentam o dia. O que calhar, a viagem
passa mais depressa.
Ainda a surpresa de uma mulher
No fim de todos estes anos, ainda se surpreende quem entra no
autocarro e vê uma mulher ao volante. A primeira mulher motorista entrou para a
Carris em 1994, então para os elétricos articulados. Hoje já são muitas.
"As velhinhas adoram quando veem uma mulher", conta Cristina. Que
logo ironiza com os comentários que ouve. "Se conduzir bem é porque sou
mulher, se conduzir mal é porque sou mulher. Se ando devagar é porque sou
mulher, se ando a acelerar é porque sou mulher, se travo bruscamente é porque
sou mulher..."
Ao preconceito, que diz ainda sentir, algumas vezes de colegas,
desvaloriza, brinca com isso. E socorre-se de novo da ironia para falar da
dificuldade de guiar um veículo tão grande. "Quando os outros condutores
veem uma mulher ao volante, afastam-se" - e ri-se. Depois confessa que, de
facto, é mais fácil do que parece. "Conduz-se melhor isto do que o meu
carro. Este carro parece que encolhe quando passo, é uma questão de
hábito."
É o hábito e a experiência que a leva a desconfiar de
comportamentos de peões ou automobilistas. À passagem na Rua de Alcântara,
provavelmente o troço mais estreito deste percurso do 756, recorda o dia em que
uma miúda de auscultadores se atirou para a estrada. "Parecia que estava a
adivinhar, vi-a a ouvir música, distraída." E antecipou o movimento brusco
da rapariga. A atenção é constante, entre os espelhos retrovisores, a abertura
de portas, a venda de bilhetes a bordo. Daí a indicação para não se falar com o
motorista nas viagens. Também por isto, "às vezes, o trabalho é um pouco
solitário". Cristina defende-se: "Observo as pessoas, o que se passa,
aprecio a cidade."
Outras vezes o trabalho acaba por ser mais administrativo, na
"expedição", como se chama ao serviço por onde passam os motoristas
para recolher as "chapas" dos carros atribuídos. Quem ali fica, como
Cristina Mendes, está no fundo a gerir a distribuição dos motoristas pelas
carreiras.
As curtas pausas entre viagens
Chega-se às Olaias, com 15 minutos de intervalo antes da
próxima partida. É tempo de preencher a folha que está na "chapa",
com os dados da viagem, tempos, números de passageiros. E desentorpecem-se as
pernas com uma vistoria ao autocarro, até ao fundo, a ver se alguém deixou para
trás alguma coisa esquecida. Com tempo pode ainda vir fora. Só tem de ter
cuidado com a janela aberta se deixar bens pessoais no seu lugar, para evitar
tentações alheias. Está lá o "aviso" para carteiristas, mas virado
para passageiros.
São 09.16, o percurso leva em regra uns 40 minutos. Quando
regressa à Junqueira, pelas 09.52, Cristina já só terá três minutos para a
pausa. É hora de ponta, o autocarro atravessa a cidade, o trânsito complica-se,
apesar de ser menor por as escolas estarem de férias. Mas já há mais gente a
circular, mais velhos do que novos (e por isso há conversas que são verdadeiros
boletins clínicos), há passageiros em pé, colegas de trabalho ou vizinhos,
fala-se ao telemóvel, joga-se mais ainda ao telemóvel. Poucos leem, quase nada:
jornais desportivos, um ou outro gratuito. Livros, só dois passageiros, homens,
mais novos, pegam em A Náusea, de Jean-Paul Sartre, e Estalinegrado, de Antony
Beevor. É um retrato impressionista de um certo estado das coisas. Há o casal,
os dois de muletas, que pede "um momento por favor", para descerem
com calma, há a mãe que leva o carrinho de bebé e um segundo filho num pano
envolto no corpo, um sling de tecidos garridos.
O dia já vai longo para Cristina, no regresso às Olaias, pelas
10.28, já com mais de cinco horas de condução. Com duas filhas pequenas, os
horários dela e do marido, também motorista na Carris, têm de ser conciliados:
se um está de manhã, o outro procura estar de tarde. "Ou com a ajuda dos
avós", quando há sobreposições de horários.
Ainda volta à Junqueira, uma última vez, pelas 11.09. Depois o
caminho faz-se até às Olaias e a volta fica mais curta, com a rendição no
Areeiro - e sete horas ao volante. Sem sombra de arrependimento pela opção de
há nove anos, Cristina Mendes diz-se satisfeita. Sintonizou a sua vida num
anúncio da rádio (texto do jornalista do DN-Lisboa, Miguel Marujo, com a devida
vénia)


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