sábado, 8 de agosto de 2015

Um anúncio na rádio mudou a vida de Cristina

Cristina Mendes, 36 anos, nove na Carris, duas filhas, tem de gerir o tempo dos horários da transportadora, dela e do marido, também motorista na empresa. Quando é necessário, as crianças ficam com os avós. Ouviu numa manhã na rádio um anúncio da Carris a pedir motoristas e guarda-freios. Nesse dia telefonou ao marido e candidataram-se. Ela pensava conduzir elétricos mas hoje diz que ainda bem que se ficou pelos autocarros. Já lá vão nove anos.
Acordou às 3.40, era noite cerrada ainda, e às 5.15 Cristina Mendes já estava sentada ao volante do Volvo que lhe calhou: a "chapa 4" do autocarro 756 era a sua para esse dia de trabalho. Anda nisto há quase nove anos, para trás e para a frente na cidade de Lisboa a transportar pessoas, com uma folha limpa de acidentes. E tudo por causa de um anúncio que ouviu numa manhã na rádio.
Aos 36 anos, está desde 2006 na Carris. "Ouvi um anúncio na Rádio Comercial, a Carris estava a pedir motoristas, também para os elétricos. Ofereciam formação e a carta", conta ela, que não tinha experiência nenhuma de conduzir pesados, só guiava o seu carro ligeiro, e trabalhava na assistência técnica de uma operadora de telecomunicações. Telefonou ao marido e decidiram os dois candidatar-se. Ele foi chamado em março, ela em setembro.
Não está arrependida. Hoje "só não faço elétricos", diz, "e ainda bem", acrescenta apressada, apesar de lhe terem dito inicialmente que podia ir para guarda-freio ("nem sabia o que isso era"). "Tiveram necessidade de chamar motoristas para os autocarros, e vim." Os elétricos são mais difíceis de manobrar do que parece, não são nenhum brinquedo. E os passageiros quase se colam ao guarda-freio, em elétricos que transbordam à cunha de turistas e lisboetas.
Às 08.29, quando Cristina (o C. da placa que tem ao peito, onde só se revela o apelido) arranca o seu 756 para mais uma viagem entre a Rua da Junqueira e as Olaias, as conversas são estremunhadas e sobre um tema: as demoras dos autocarros. Não é o caso deste. É dia de semana, mas o ritmo da cidade já vai sendo de férias e o horário será cumprido sem sobressaltos atravessando Alcântara, Avenida de Ceuta, Praça de Espanha, Avenida de Berna, Campo Pequeno, Areeiro e, por fim, as Olaias.
Há duas escolas que já há anos fecharam portas junto ao terminal do autocarro na Junqueira - antes era um articulado, "veículo longo" que fazia as vezes desse percurso. Agora já não é preciso, apesar da proximidade do Hospital Egas Moniz e da antiga FIL. Os 35 lugares sentados servem perfeitamente: há 12 passageiros ao início da viagem, mas até ao Campo Pequeno entrarão sempre mais do que saem. Composto mas sem abarrotar, só o fotógrafo que acompanha a reportagem do DN foge à rotina da viagem. "É um profissional", constata um homem para o amigo, imediatamente antes de tocar para saírem. Estamos na Avenida de Ceuta e distribui-se metadona numa carrinha. É aí que eles vão.
O dia para Cristina começa bem cedo, pelas cinco da manhã. No dia em que a reportagem do DN a acompanhou, o autocarro que lhe estava atribuído era o 756, que faz o percurso entre a Rua da Junqueira e as Olaias, em Lisboa
O dia para Cristina começa bem cedo, pelas cinco da manhã. No dia em que a reportagem do DN a acompanhou, o autocarro que lhe estava atribuído era o 756, que faz o percurso entre a Rua da Junqueira e as Olaias, em Lisboa Fotografia © Álvaro Isidoro / Global Imagens
Cristina Mendes não tem histórias complicadas para contar. Neste 756 ou no 725, que conduz entre o Oriente e a Portela. Não anda sempre nos mesmos percursos, também lhe calha circular com o 755, do Poço do Bispo a Sete Rios. Só não faz a "rede da madrugada", autocarros que a Carris tem a circular durante todas as noites e madrugadas. Mas não fazer madrugadas é quase força de expressão: no dia seguinte entra ao serviço às 04.50. "É diferente. Apanho sobretudo as pessoas que vão trabalhar", quase tão cedo como ela.
Muitas vezes os protestos de passageiros nascem com os pequenos atrasos, para quem precisava de apanhar o autocarro ao minuto certo para depois correr para o transporte seguinte. Como na profissão de motorista. "Aqui não existe o telefonema a avisar o chefe "vou mais tarde"", explica. "É à hora, naquele local", que se tem de estar para entrar ao serviço, para render um outro motorista.
Também por isto há motoristas que estão "às ordens", sem carreiras atribuídas, prontos para qualquer eventualidade. Nesse dia, Cristina deixará o serviço às 12.04, no Areeiro. Um eventual atraso de quem a fosse render poderia atrasar tudo e todos.
No "25" (os passageiros mantêm o hábito de comer o 7 aos números acrescentados há anos às carreiras, quando a empresa reorganizou a rede), "as pessoas acabam por se conhecer", conta Cristina. Há sobretudo reformados que metem conversa, por entre as curvas do percurso. "Querem saber o nosso nome", e comentam o dia. O que calhar, a viagem passa mais depressa.
Ainda a surpresa de uma mulher
No fim de todos estes anos, ainda se surpreende quem entra no autocarro e vê uma mulher ao volante. A primeira mulher motorista entrou para a Carris em 1994, então para os elétricos articulados. Hoje já são muitas. "As velhinhas adoram quando veem uma mulher", conta Cristina. Que logo ironiza com os comentários que ouve. "Se conduzir bem é porque sou mulher, se conduzir mal é porque sou mulher. Se ando devagar é porque sou mulher, se ando a acelerar é porque sou mulher, se travo bruscamente é porque sou mulher..."
Ao preconceito, que diz ainda sentir, algumas vezes de colegas, desvaloriza, brinca com isso. E socorre-se de novo da ironia para falar da dificuldade de guiar um veículo tão grande. "Quando os outros condutores veem uma mulher ao volante, afastam-se" - e ri-se. Depois confessa que, de facto, é mais fácil do que parece. "Conduz-se melhor isto do que o meu carro. Este carro parece que encolhe quando passo, é uma questão de hábito."
É o hábito e a experiência que a leva a desconfiar de comportamentos de peões ou automobilistas. À passagem na Rua de Alcântara, provavelmente o troço mais estreito deste percurso do 756, recorda o dia em que uma miúda de auscultadores se atirou para a estrada. "Parecia que estava a adivinhar, vi-a a ouvir música, distraída." E antecipou o movimento brusco da rapariga. A atenção é constante, entre os espelhos retrovisores, a abertura de portas, a venda de bilhetes a bordo. Daí a indicação para não se falar com o motorista nas viagens. Também por isto, "às vezes, o trabalho é um pouco solitário". Cristina defende-se: "Observo as pessoas, o que se passa, aprecio a cidade."
Outras vezes o trabalho acaba por ser mais administrativo, na "expedição", como se chama ao serviço por onde passam os motoristas para recolher as "chapas" dos carros atribuídos. Quem ali fica, como Cristina Mendes, está no fundo a gerir a distribuição dos motoristas pelas carreiras.
As curtas pausas entre viagens
Chega-se às Olaias, com 15 minutos de intervalo antes da próxima partida. É tempo de preencher a folha que está na "chapa", com os dados da viagem, tempos, números de passageiros. E desentorpecem-se as pernas com uma vistoria ao autocarro, até ao fundo, a ver se alguém deixou para trás alguma coisa esquecida. Com tempo pode ainda vir fora. Só tem de ter cuidado com a janela aberta se deixar bens pessoais no seu lugar, para evitar tentações alheias. Está lá o "aviso" para carteiristas, mas virado para passageiros.
São 09.16, o percurso leva em regra uns 40 minutos. Quando regressa à Junqueira, pelas 09.52, Cristina já só terá três minutos para a pausa. É hora de ponta, o autocarro atravessa a cidade, o trânsito complica-se, apesar de ser menor por as escolas estarem de férias. Mas já há mais gente a circular, mais velhos do que novos (e por isso há conversas que são verdadeiros boletins clínicos), há passageiros em pé, colegas de trabalho ou vizinhos, fala-se ao telemóvel, joga-se mais ainda ao telemóvel. Poucos leem, quase nada: jornais desportivos, um ou outro gratuito. Livros, só dois passageiros, homens, mais novos, pegam em A Náusea, de Jean-Paul Sartre, e Estalinegrado, de Antony Beevor. É um retrato impressionista de um certo estado das coisas. Há o casal, os dois de muletas, que pede "um momento por favor", para descerem com calma, há a mãe que leva o carrinho de bebé e um segundo filho num pano envolto no corpo, um sling de tecidos garridos.
O dia já vai longo para Cristina, no regresso às Olaias, pelas 10.28, já com mais de cinco horas de condução. Com duas filhas pequenas, os horários dela e do marido, também motorista na Carris, têm de ser conciliados: se um está de manhã, o outro procura estar de tarde. "Ou com a ajuda dos avós", quando há sobreposições de horários.

Ainda volta à Junqueira, uma última vez, pelas 11.09. Depois o caminho faz-se até às Olaias e a volta fica mais curta, com a rendição no Areeiro - e sete horas ao volante. Sem sombra de arrependimento pela opção de há nove anos, Cristina Mendes diz-se satisfeita. Sintonizou a sua vida num anúncio da rádio (texto do jornalista do DN-Lisboa, Miguel Marujo, com a devida vénia)

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