Provavelmente caminho a passos largos para me despedir de um
jornal que foi uma espécie de segunda casa, pois aqui comecei uma atividade
profissional que me permitiu que me sinta realizado e, mais do que isso, que
permita que afirme que não me arrependo das opções tomadas, ainda antes do 25
de Abril quando na seção desportiva deste jornal, e ainda estudante do antigo Liceu, comecei a escrevinhar,
dando os primeiros passos neste
fascinante mundo do jornalismo. O vício ficou e perdurou. Recuperei recentemente a minha
certeira profissional depois de alguns anos em que estive privado dela por
compreensíveis incompatibilidades deontológicas, dado que me considero até
morre um profissional apto a exercer a sua profissão e a aceitar todos os desafios
com os quais me possa confrontar.
Os que mais de
perto lidam comigo sabem o que penso quanto à libertação de todo e qualquer projeto jornalístico, conhecem o que defendo, sabem que prezo a liberdade de imprensa e de
opinião, sabem que tenho da comunicação social a noção de um instrumento
fundamental no processo de construção da sociedade democrática moderna e não
como uma
espécie de um atalho tenebroso e sem fim
que destrói tudo à sua passagem. As sociedades reféns de um reduzido número de meios de comunicação social, quer públicos quer pertença de grupos empresariais
privados que muitas vezes se financiam não se sabe como nem onde ou à custa do
quê, representam sempre uma ameaça à democracia, à liberdade de pensar e em última análise ao processo eleitoral e ao próprio processo de decisão governativa.
Diz-se, com alguma lógica, que a comunicação social nas mãos do
Estado é um perigo porque fica indefesa perante a vontade do dono, os apetites
controladores do poder ou os seus redutores e muitas vezes estranhos conceitos de
liberdade e de democracia. Mas bem vistas as coisas qual a diferença, quanto às
motivações, propósitos e objetivos, entre o Estado-dono de meios de comunicação
e os grupos empresariais privados que usam os meios de comunicação de que são
proprietários não por capricho nem como um “hobby” caro, mas como um
instrumento de pressão ao serviço de interesses e de causas que lhes são convenientes e do seu interesse especifico presente
e/ou futuro. Não duvidem disto.
Gostava muito que o JM pudesse encontrar tranquilamente um novo ciclo na sua
existência, nas mãos de privados dado que repetidamente, por decisão do
Governo Regional é esse o modelo empresarial que será preparado e negociado. Tenho a certeza, contudo, que os tempos
não são convidativos e que a dimensão do nosso mercado regional coloca problemas adicionais que
podem vir a revelar o outro lado da moeda, a face mais obscura e desconhecida
subjacente a certas posturas e pressões.
Abordarei, assim espero, essa temática na próxima semana,
ressalvando que o Governo Regional em funções, com uma clara perspectiva
diferente do anterior, tem toda a legitimidade para decidir no sentido da
anunciada desresponsabilização dos contribuintes de encargos financeiros com o
JM que obviamente serão canalizados para outras áreas de intervenção.
Tenho a consciência de que provavelmente no imediato o
meu afastamento do quadro de opinião deste jornal, para além de facilitar uma
renovação de articulistas, afasta algum incómodo com origem em muitos dos meus
textos, pois as pessoas conhecem certamente a minha opinião sobre tudo o que se
tem passado com a governação de Portugal nos últimos quatro anos e com o facto
de pessoalmente não me rever rigorosamente nada, quer enquanto cidadão agora
liberto de qualquer responsabilidade de dirigismo partidário – e ainda bem –
quer enquanto profissional da comunicação social que não prescinde nem abdica
da sua liberdade de pensamento e de opinião. Obviamente respeitando sempre as
pessoas, mesmo que com elas não concorde e mesmo quando, por vezes, essa minha
opinião possa denotar algum radicalismo agressivo que é falso e que se limita à
escrita e a um estilo pessoal longe de consensualidade.
Sei que há pessoas, hoje com responsabilidades políticas,
algumas delas amigos pessoais desde infância, que não concordam o que digo
sobre a governação de Passos Coelho e do CDS, que não subscrevem as críticas
que tenho feito neste espaço de opinião e à minha tentativa – penso que sem
grande sucesso – de desmistificação dos pilares da propaganda que nos tenta
vender “gato por lebre”, etc. Não quero, longe de mim, causar incómodo seja a
quem for.
Como é que posso concordar que tudo “esteja bem” – diz a
corja do costume - quando esta semana ficamos a saber que Portugal pagou 2 mil
milhões de euros e comissões à troika? Ou que cerca de 160 famílias têm o
crédito à habitação em atraso? Ou que milhares de pessoas sejam perseguidas por
uma máquina fiscal absolutamente nojenta que ameaça com penhoras automáticas
(!), que alicia os funcionários das finanças com prémios de “produtividade”
tudo isto a revelar a lamentável insensibilidade social desta coligação
lisboeta apostada no tudo por tudo para tentar ganhar eleições? Como posso
aceitar que se espatife mais de 11 mil milhões na banca e se corte nas responsabilidades
sociais do Estado, penalizando pobres, excluídos, idosos, desempregados, etc.?
Não posso, nunca! (LFM/JM)
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