quinta-feira, 14 de maio de 2015

Opinião: "A caminho do fim"



Provavelmente caminho a passos largos para me despedir de um jornal que foi uma espécie de segunda casa, pois aqui comecei uma atividade profissional que me permitiu que me sinta realizado e, mais do que isso, que permita que afirme que não me arrependo das opções tomadas, ainda antes do 25 de Abril quando na seção desportiva deste jornal, e ainda estudante do antigo Liceu, comecei a escrevinhar, dando os primeiros passos neste fascinante mundo do jornalismo. O vício ficou e perdurou. Recuperei recentemente a minha certeira profissional depois de alguns anos em que estive privado dela por compreensíveis incompatibilidades deontológicas, dado que me considero até morre um profissional apto a exercer a sua profissão e a aceitar todos os desafios com os quais me possa confrontar.
Os que mais de perto lidam comigo sabem o que penso quanto à libertação de todo e qualquer projeto jornalístico, conhecem o que defendo, sabem que prezo a liberdade de imprensa e de opinião, sabem que tenho da comunicação social a noção de um instrumento fundamental no processo de construção da sociedade democrática moderna e não como uma espécie de um atalho tenebroso e sem fim que destrói tudo à sua passagem. As sociedades reféns de um reduzido número de meios de comunicação social, quer públicos quer pertença de grupos empresariais privados que muitas vezes se financiam não se sabe como nem onde ou à custa do quê, representam sempre uma ameaça à democracia, à liberdade de pensar e em última análise ao processo eleitoral e ao próprio processo de decisão governativa.
Diz-se, com alguma lógica, que a comunicação social nas mãos do Estado é um perigo porque fica indefesa perante a vontade do dono, os apetites controladores do poder ou os seus redutores e muitas vezes estranhos conceitos de liberdade e de democracia. Mas bem vistas as coisas qual a diferença, quanto às motivações, propósitos e objetivos, entre o Estado-dono de meios de comunicação e os grupos empresariais privados que usam os meios de comunicação de que são proprietários não por capricho nem como um “hobby” caro, mas como um instrumento de pressão ao serviço de interesses e de causas que lhes são convenientes e do seu interesse especifico presente e/ou futuro. Não duvidem disto.
Gostava muito que o JM pudesse encontrar tranquilamente um novo ciclo na sua existência, nas mãos de privados dado que repetidamente, por decisão do Governo Regional é esse o modelo empresarial que será preparado e negociado. Tenho a certeza, contudo, que os tempos não são convidativos e que a dimensão do nosso mercado regional coloca problemas adicionais que podem vir a revelar o outro lado da moeda, a face mais obscura e desconhecida subjacente a certas posturas e pressões.
Abordarei, assim espero, essa temática na próxima semana, ressalvando que o Governo Regional em funções, com uma clara perspectiva diferente do anterior, tem toda a legitimidade para decidir no sentido da anunciada desresponsabilização dos contribuintes de encargos financeiros com o JM que obviamente serão canalizados para outras áreas de intervenção.
Tenho a consciência de que provavelmente no imediato o meu afastamento do quadro de opinião deste jornal, para além de facilitar uma renovação de articulistas, afasta algum incómodo com origem em muitos dos meus textos, pois as pessoas conhecem certamente a minha opinião sobre tudo o que se tem passado com a governação de Portugal nos últimos quatro anos e com o facto de pessoalmente não me rever rigorosamente nada, quer enquanto cidadão agora liberto de qualquer responsabilidade de dirigismo partidário – e ainda bem – quer enquanto profissional da comunicação social que não prescinde nem abdica da sua liberdade de pensamento e de opinião. Obviamente respeitando sempre as pessoas, mesmo que com elas não concorde e mesmo quando, por vezes, essa minha opinião possa denotar algum radicalismo agressivo que é falso e que se limita à escrita e a um estilo pessoal longe de consensualidade.
Sei que há pessoas, hoje com responsabilidades políticas, algumas delas amigos pessoais desde infância, que não concordam o que digo sobre a governação de Passos Coelho e do CDS, que não subscrevem as críticas que tenho feito neste espaço de opinião e à minha tentativa – penso que sem grande sucesso – de desmistificação dos pilares da propaganda que nos tenta vender “gato por lebre”, etc. Não quero, longe de mim, causar incómodo seja a quem for.
Como é que posso concordar que tudo “esteja bem” – diz a corja do costume - quando esta semana ficamos a saber que Portugal pagou 2 mil milhões de euros e comissões à troika? Ou que cerca de 160 famílias têm o crédito à habitação em atraso? Ou que milhares de pessoas sejam perseguidas por uma máquina fiscal absolutamente nojenta que ameaça com penhoras automáticas (!), que alicia os funcionários das finanças com prémios de “produtividade” tudo isto a revelar a lamentável insensibilidade social desta coligação lisboeta apostada no tudo por tudo para tentar ganhar eleições? Como posso aceitar que se espatife mais de 11 mil milhões na banca e se corte nas responsabilidades sociais do Estado, penalizando pobres, excluídos, idosos, desempregados, etc.? Não posso, nunca! (LFM/JM)

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