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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Ciclismo: Camisolas amarelas, recibos verdes

A Volta a Portugal acabou, mas eles vão andar por aí. Eles que pedalam e sofrem durante o ano inteiro e não somente neste agosto que parece o único mês em que nos lembramos deles. Porque o ciclimo é feito por gente que ganha mal e paga em dor por um espetáculo de sacrifício: manda a União Ciclista Internacional (UCI) que o ordenado mínimo de um corredor seja de mil euros por mês, mas esse valor nem sempre é cumprido. “Muitos vivem com o ordenado mínimo”. Cândido Barbosa é de dois tempos: do tempo em que se podia ser ciclista, já lá vai uma vida, e do tempo em que deixou de se poder ser. E esse tempo foi há tão pouco que Cândido consegue emparedá-lo em duas datas com quatro ou cinco anos dentro delas. Entre 2007 ou 2008 — Cândido não sabe precisar — e 2011, as coisas mudaram para pior, porque nisto das crises não se avança para melhor, por mais histórias de boa vontade que se contem. E, voltando a Cândido, entre 2007 ou 2008 — num desses dois anos que não sabe precisar — e 2011, passou a levar para casa metade do que costumava levar. “Houve um corte de 50% na média dos salários”, diz o antigo corredor. Cândido ganhava bem para a época, 50 mil euros brutos por ano, o que dava 4 mil euros brutos por mês durante os 12 meses. E tinha contrato, como outros que tivera antes e que lhe haviam permitido sair da casa dos pais aos 23 anos, casar-se, ser ele próprio pai de dois filhos e construir a sua casa em Paredes. Hoje, diz Cândido, um ciclista sub-30 não pode ter família e contrair um empréstimo para comprar um apartamento. Hoje, o ciclista vai ficando pela casa da família, enquanto esta o sustenta e ele espera pelo dia em que se poderá financiar — acontece que esse dia pode nunca chegar.
A GERAÇÃO MIL
O ciclismo em Portugal não é a cor que se vê na RTP na Volta, que acabou este domingo em Lisboa. É um lugar cinzento, de salários baixos e sacrifícios altos, como a Senhora da Graça ou a Torre. Manda a União Ciclista Internacional (UCI) que o ordenado mínimo de um corredor seja de mil euros por mês, mas esse valor nem sempre é cumprido, ora porque se paga por recibos verdes e a retenção na fonte e a contribuição para a Segurança Social o cortam às postas, ora porque... a equipa nem sempre paga. “Eu cheguei a ter conhecimento de corredores que tinham acordado ganhar mil euros e depois só recebiam 750”, lembra Cândido Barbosa. Nestes dias, as coisas não estão diferentes, e Marco Chagas fala delas com a distância de um comentador televisivo que já foi ciclista. Fá-lo comedido, porque o dinheiro é uma coisa íntima, como a roupa coçada que se usa debaixo da farpela de domingo e que se mostra apenas a quem se confia. “Do que sei, sei que muitos vivem com o ordenado mínimo. E esta é uma profissão de risco, uma carreira curta. Mais do que isto, os ciclistas jovens vivem em casa dos pais e adiam a emancipação, porque não conseguiriam viver sozinhos.” Os profissionais pagam a alimentação, os suplementos de nutrição, muitas vezes os treinos — e recebem em dor. Para Chagas, é como voltar às bicicletas de ferro no tempo das ligas leves de carbono ou kevlar. “Eu também passei por muito e precisei dos meus pais durante algum tempo. O meu primeiro ordenado foi de 700 escudos por mês, veja lá bem. A modalidade está em risco”, lamenta Marco Chagas.
IR PARA FORA
Um homem só pede ajuda a outro homem se não tiver outro remédio. A Joaquim Andrade, presidente da Associação Portuguesa de Ciclistas Profissionais, não lhe chegam pedidos, apenas rumores. “É o diz que disse”, diz ele, que vai ouvindo algumas histórias por aí. Como aquela do diretor desportivo que fugiu com o dinheiro antes de uma grande prova ou a dos ciclistas que vão às poupanças para pagar contas correntes quando não recebem o que lhes é devido. “600 ou 700 euros por mês para gente que tem família e filhos... Não está fácil, como há de perceber. Estamos um bocadinho melhor nestes últimos dois anos, mas o que se ouve por aí é isto: ‘Ah, isto está mau, isto está mau...’” Os ciclistas mais velhos sujeitam-se porque não têm outra coisa e os mais novos porque querem outra coisa. Querem ser como o Rui Costa, que está na Lampre, ou o Tiago Machado, da Katucha, ou o Sérgio Paulinho, da Tinkoff. “É isso que lhes dá motivação e os faz competir e arriscar o futuro.” Mas nem todos podem ser o Rui ou o Tiago ou o Sérgio, e Portugal caminha para o fim da classe média. “Antigamente”, relembra Cândido, “os ciclistas medianos ou mesmo os fracos, que estavam lá só para ajudar o chefe de fila [o líder da equipa], conseguiam ter o seu dinheirinho e poupar. Agora, só mesmo a elite aguenta, e essa quer logo ir para fora de Portugal.”
SÓ A VOLTA INTERESSA
Para o português comum, o ciclismo em Portugal é a Volta. É e não é. No calendário da Federação Portuguesa de Ciclismo estão 60 provas de estrada, que se disputam entre fevereiro e outubro (novembro é uma espécie de Entrudo, onde vale tudo; dezembro e janeiro é o momento de cortar gordura), mas o que realmente interessa é a Volta. Para quem compete e para quem vê. “E nessa altura”, ironiza Joaquim Andrade, “aparecem sempre uns iluminados com mil e um projetos e ideias que desaparecem logo que a corrida acaba”. A crise e o doping afastaram os patrocinadores, e o ciclismo, que não é capaz de gerar receitas, afasta-se de si próprio — desacelera e trava. Andrade avança na conversa com soluções que vê no estrangeiro. “Já se exploram os direitos de imagem dos ciclistas e paga-se um ‘x’ pelas câmaras nas bicicletas.” Andrade não parece muito convicto. O problema português é que o ciclismo não aguenta os Cândidos, os Chagas ou os Joaquins Gomes destes tempos. Dantes, mesmo sem luzes, havia estrelas; agora, nem umas nem outras” (texto do jornalista do Expresso, Pedro Candeias, com a devida vénia)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Volta foi mesmo de Gustavo Veloso, mas sem espumante

Com toda a tranquilidade e com facilidade q.b. Gustavo Veloso teve neste domingo, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, a esperada consagração. O ciclista da W52-Quinta da Lixa conquistou a camisola amarela logo à segunda etapa da Volta à Portugal, na serra do Larouco, e o único que foi fazendo sombra a Veloso foi Delio Fernández, que nunca colocou em risco a vitória do seu companheiro de equipa. O espanhol, no entanto, não teve direito ao tradicional espumante: antes mesmo de os ciclistas cortarem a meta em Lisboa, a organização anunciou que não haveria a tradicional celebração. Motivo? Um protesto pelas opções editoriais dos jornais desportivos.
Peculiaridades do desporto português à parte, a 10.ª e última etapa da 77.ª Volta a Portugal não trouxe nenhuma hecatombe para Gustavo Veloso, que confirmou o seu segundo triunfo consecutivo na competição ao cortar a meta na 31.ª posição, a nove segundos de Matteo Maluccelli. Com apenas 21 anos, o italiano cumpriu os 132,5 quilómetros da etapa, decidida ao sprint, praticamente a par do seu colega de equipa e conterrâneo Davide Vigano, a quem “traiu”. “A etapa era para o Vigano, que era o mais forte. No final, eu estava bem e nos últimos 200 metros tentei a minha sorte. A 50 metros, olhei para o lado, vi o Vigano mais atrás e não soube o que fazer. A etapa deveria ter sido para ele, que é superior e mais velho, eu sou um miúdo”, afirmou no final o italiano. Os holofotes estavam, no entanto, apontados para Gustavo Veloso. Mantendo a tradição recente, a Volta a Portugal voltou a ser ganha por um galego (é o quarto ano consecutivo) e o ciclista da W52-Quinta da Lixa repetiu o feito do ano passado. E a explicação para o domínio da Galiza na competição portuguesa foi deixada pelo vencedor no final: “Muitos de nós aprendemos a ser ciclistas em Portugal, é aqui que temos essa oportunidade. O que somos hoje deve-se a Portugal. É preciso sacrificar muitas coisas na vida. Sacrificamos o tempo com a mulher e com os filhos em prol de estágios, para estarmos na melhor forma. Se a Volta não fosse tão importante como é para mim, não sacrificaria todas essas coisas.” Sobre o futuro e um hipotético “tri” no próximo ano o ciclista, natural de Villagarcia de Arosa, não revelou se voltará a correr na Volta a Portugal — “Nem sei onde vou estar hoje, quanto mais no próximo ano” —, mas descartou qualquer possibilidade de conseguir igualar o recorde de cinco provas ganhas por David Blanco: “Não é um objectivo para mim, já tenho 35 anos e não sei quantos mais vou correr.”
“Azeiteiros e broncos”
O protagonismo do último dia não foi, todavia, apenas para Matteo Maluccelli e Gustavo Veloso. Para além de anunciar que a 78.ª edição da competição vai terminar com um contra-relógio que ligará Vila Franca de Xira e Lisboa, a organização da Volta, liderada pelo antigo ciclista Joaquim Gomes, resolveu insurgir-se contra “as primeiras páginas dos jornais desportivos” que dão “eco a modalidades recheadas de azeiteiros, que é como quem diz broncos”, privando os ciclistas, que terão concordado com a medida, do tradicional espumante no final. “O público português não é tão estúpido assim para estar a levar com polémicas com o Jorge Jesus ou com o treinador do Benfica, ou com o jogador que estava para vir e já não vem, isso não é desporto”, acrescentou o director da Volta em conferência de imprensa. Restou, por isso, a Gustavo Veloso festejar convenientemente em Sobrado, vila do concelho de Valongo que organizou para o início da madrugada deste domingo uma recepção à equipa da W52-Quinta da Lixa, que tem sede nesta localidade. E o espumante deve faltar (texto do jornalista David Andrade do  Publico, com a devida vénia)

Choque violento entre ciclista e carro de apoio

O ciclista britânico Matt Brammeier, da MTN-Qhubeka, sofreu um acidente violento durante a sexta etapa da Volta ao Utah, nos Estados Unidos da América. O ciclista britânico Matt Brammeier, da MTN-Qhubeka, protagonizou um violento acidente na sexta etapa da Volta ao Utah, nos Estados Unidos. Numa curva durante a rápida descida do Guardsman Pass, o atleta não conseguiu evitar uma violenta colisão contra um Porsche Panamera de apoio à prova. Na confusão que se seguiu, outro ciclista colidiu com uma moto. Brammeier partiu a pélvis, várias costelas e perfurou um pulmão. Recupera agora num hospital em Salt Lake City, de onde partilhou uma foto no Twitter para sossegar os fãs.