Mourinho está preocupado com os reforços milionários dos rivais, mas não é assim tão comum o mais gastador da época ser campeão nas ligas europeias. Muito menos em Inglaterra. Entre os 20 clubes da Primeira Liga Inglesa, o Chelsea de José Mourinho está apenas na 12.ª posição entre os que mais investiram na actual janela de transferências. Uma posição inédita na carreira do ‘Special One’, que não tem conseguido disfarçar o seu mal-estar. Depois de ter lançado farpas aos gastos de Sporting e FC Porto – ou a dois antigos ódios de estimação que são Jorge Jesus e Iker Casillas –, o campeão inglês lançou-se às despesas da concorrência. Confrontado com os quase 300 milhões de euros (ME) investidos até ao momento pelos dois rivais de Manchester mais o Liverpool, Mourinho acusou-os de estarem a «comprar o título».
«Cabe-nos ser fortes, combatê-los e obviamente tentar ganhar outra vez, mesmo sem grandes investimentos», desabafou o português depois de recordar que os mesmos adversários acusavam o Chelsea de comprar o sucesso após a chegada do actual proprietário, Roman Abramovich. O bilionário russo só teve de esperar dois anos para ver o investimento recompensado com a histórica conquista da Premier League, que em 2005 acabou com um jejum de meio século. Mas Mourinho repetiu o feito no ano seguinte, levando a que os primeiros 420 ME investidos por Abramovich se traduzissem em dois títulos nacionais (210 ME por título). O sucesso do russo teve impacto fora dos relvados, com investidores a chegarem dos EUA, Ásia ou Médio Oriente para assumirem o controlo de outros clubes da Premier League. A partir daí a tendência inverteu-se, pois só por uma vez a época acabou com o maior investidor a celebrar o título.
Alex Ferguson era ainda o timoneiro do Manchester United que em 2007 bateu toda a concorrência dentro e fora dos relvados. A conquista simultânea da Liga Inglesa e da Liga dos Campeões calou até o adepto mais crítico dos 103,5 ME gastos em reforços nessa época.
Apesar dessa marca, os resultados do clube até à reforma de Ferguson em 2013 mostram que vencer no mercado de transferências não é, por si só, garantia de sucesso desportivo. Foi em Old Trafford que ficaram cinco dos últimos dez títulos de campeão inglês. E o clube nem sequer está no pódio dos mais gastadores da década no país, ficando atrás de Manchester City, Chelsea e Liverpool.
A Premier a 500 milhões
Outro exemplo que confirma a regra, a nível europeu, é o Barcelona. O grande dominador da década – venceu quatro Champions – foi ‘apenas’ o quinto mais gastador no continente. Dos quatro que ficaram à sua frente, apenas dois conseguiram vencer a principal competição de clubes – Real Madrid (2013/14) e Chelsea (2011/12). O Liverpool, cujos 844 ME investidos o colocam no 4.º lugar entre os mais gastadores do continente, continua a sua seca de títulos dentro e fora de portas, tendo vencido apenas uma Taça e uma Taça da Liga Inglesa desde 2005. E o Manchester City, que só é batido pelo Real Madrid neste ranking de despesas, ainda está por se estrear em títulos europeus nesta era do xeque Mansour bin Zayed.
Em sete anos, o vice-primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos gastou 943,1 ME só em jogadores, excluindo salários. O clube inglês acabou com o jejum interno que durava desde 1968, mas para já o xeque está a pagar por cada Premier League mais do dobro do valor que Abramovich conseguiu há dez anos: são quase 500 ME por cada liga conquistada contra os 210 ME que, na lógica agora defendida por Mourinho, custou cada um dos primeiros dois títulos do russo. Com os gastos pré-Mansour, o City forma com o Real Madrid a dupla de emblemas que ultrapassaram a barreira dos mil milhões de euros investidos ao longo da dé- cada. Mas os espanhóis, que nesse período somaram à conquista da tão esperada ‘décima’ Liga dos Campeões do currículo outros três títulos de campeões internos, ‘negociaram’ a um preço de 293 ME cada triunfo importante.
Monopólio português
Na comparação directa entre ligas, o sucesso parece ser mais barato em Espanha, onde ficaram 11 das 20 competições europeias disputadas desde 2005 (17 em 30, se contabilizada a Supertaça), apesar do investimento de 4,3 mil milhões de euros representar pouco mais de metade do total de gastos ingleses. Mas os números globais também enganam, pois a disparidade a nível colectivo não se verifica quando se observam os gastos dos principais clubes. Se em Inglaterra o Top 5 de clubes ricos representa 51,3% do total de dinheiro gasto, em Espanha os cinco representam 75,5% dos investimentos. Em Itália, que surpreendentemente aparece em segundo lugar entre as ligas mais investidoras, o equilíbrio também é maior, com os cinco principais emblemas a representarem 50,19% dos gastos da Série A. Neste parâmetro a maior desigualdade verifica-se em Portugal, onde os três grandes são responsáveis por 92,8% do capital investido. Sp. Braga e V. Guimarães fecham o Top 5, representando apenas 2% do investimento os restantes 13 clubes da Primeira Liga.
Mais positivo para a Liga Portuguesa é o facto de, entre as dez mais ricas da Europa, ser uma das duas cujo saldo de compras e vendas é positivo, com o investimento de 805 ME a ter um retorno de 1,68 mil milhões em vendas. A outra confirma a ‘democracia’ britânica: a segunda divisão inglesa aparece em 8.º nesse outro ranking, tendo o saldo de compras e vendas gerado um lucro superior a 400 ME desde 2005 (Sol)


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