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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Paris: caos burocrático de Bruxelas dificulta combate ao terrorismo

Dividida em 19 prefeituras, seis zonas policiais e à mercê das rivalidades internas entre valões e flamengos, capital vista como centro do terrorismo europeu enfrenta dificuldades para coordenar sua segurança.
Quem é o responsável pela segurança da capital da Bélgica, Bruxelas – a cidade apontada como o local de origem de alguns dos terroristas que executaram os atentados em Paris? A pergunta é simples. A resposta, nem tanto.
Desde o surgimento do "Estado Islâmico" (EI), a Bélgica encabeça a lista de países europeus com proporcionalmente mais cidadãos recrutados para as fileiras do grupo jihadista. As autoridades do país estimam que mais de 450 belgas partiram para a Síria e outros centros do EI. Considerando o tamanho da população do país, de 11 milhões, o número é o dobro do registrado na vizinha França e o quíntuplo do verificado na Alemanha.
No meio dessa equação preocupante está Bruxelas, que já vem recebendo por parte da imprensa europeia o apelido de "capital da Jihad" e "celeiro do terrorismo". Com cerca de 1,2 milhão de habitantes, Bruxelas está longe de ser uma das maiores metrópoles da Europa, mas tem uma estrutura municipal e política extremamente complicada – e críticos do sistema apontam que esse enrosco dificulta os esforços para melhorar a segurança e combater o terrorismo.
"Em termos de segurança, Bruxelas é um exemplo perfeito de verdadeiro caos", afirmou o prefeito de Vilvoorde, Hans Bonte, à rede de TV RTBF. Sua cidade nos arredores da capital também já foi apontada como um epicentro de terrorismo, mas desde janeiro tem liderado esforços para erradicar o problema.
Dezenove prefeituras
Bruxelas não tem uma administração centralizada, mas um total de 19 communes, extremamente autônomas e que dispõem de seus próprios prefeitos, vereadores e regras locais. Alguns dos conselhos municipais dessas áreas contam com até 50 membros.
Aos prefeitos, cabe administrar não apenas a educação e os bens públicos, mas também manter a segurança em suas áreas. E muitas vezes suas administrações dependem de coalizões frágeis para se manter no poder. Entre essas prefeituras está a de Molenbeek , apontada por órgãos de inteligência como o local de concentração de muitos terroristas que atacaram Paris.
Molenbeek é uma das 19"communes", todas autônomas
Toda a área que compreende as prefeituras é, em princípio, comandada por uma espécie de primeiro-ministro, mas na prática ele têm pouco poder – e a questão da segurança não faz parte das suas atribuições.
Para complicar ainda mais, também existe a figura de um governador para toda a área, uma função burocrática que representa os interesses do governo federal na região. Por fim, a capital ainda tem três comissões para atender suas comunidades linguísticas em assuntos como educação e cultura, cada uma com seu próprio parlamento.
Seis departamentos de polícia
Essa fragmentação também se estende à polícia local. A cidade não possui um departamento de polícia, mas seis – todos independentes –, cujas zonas de atuação se estendem por várias prefeituras. O efetivo policial total da área da capital inclui 5 mil homens, só que eles não respondem a um comando unificado, mas a seis colégios formados pelos prefeitos que estão na área de cada uma das zonas de atuação – e esses prefeitos têm interesses que muitas vezes não coincidem, além de serem rivais no plano federal (vários deles também são deputados).
Há também outros complicadores, como o fato de a vigilância no interior dos trens de Bruxelas ser uma atribuição da polícia federal e o policiamento das estações de trem ser responsabilidade das polícias locais.
As próprias autoridades belgas reconhecem as dificuldades. "O fato de a política e a polícia de Bruxelas serem mais divididas do que seria aconselhável numa cidade desse tamanho cria problemas adicionais para a vigilância", afirmou o Ministro da Justiça, Koen Geens, à rede CNN.
"Temos 1,2 milhão de habitantes e seis departamentos. Nova York, com seus 11 milhões de habitantes, tem só um", disse o ministro o Interior, Jan Jambon, ao site Politico, apenas dois dias antes dos ataques em Paris. A cidade também não conta com uma divisão antiterrorista, a exemplo de outras grandes cidades, incluindo Nova York.
Tudo em duas línguas
Outras peculiaridades do Estado belga – tradicionalmente dividido entre os valões no sul, que falam francês, e os flamengos no norte, falantes do holandês – também jogam contra a eficiência da polícia local.
Como Bruxelas é oficialmente considerada uma área bilíngue franco-flamenga (embora a maioria da população fale francês), é exigido que os policiais também sejam fluentes nas duas línguas. Segundo a imprensa belga, isso dificulta o recrutamento local. Consequentemente, a maioria dos policiais de Bruxelas vem de outras cidades e não está tão familiarizada com as comunidades locais. Segundo um censo elaborado este ano, apenas 8% dos policiais são originários das zonas em que atuam.
Recentemente, Jambon (que é também um nacionalista flamengo) propôs trazer policiais do Marrocos para ajudar a combater a criminalidade entre as comunidades estrangeiras. A proposta irritou a presidente do Parlamento Francófono de Bruxelas, Julie de Groote. "Em vez de trazer policiais marroquinos para nos mostrar como agir em nossos bairros, deveríamos atuar para que a polícia reflita a composição da população bruxelense", afirmou Groote à imprensa belga no mês passado.
Vários políticos já propuseram uma unificação dos seis departamentos de polícia da capital, entre eles o ministro do Interior, mas, novamente, a iniciativa esbarra nas divisões do Estado belga. O movimento de unificação é liderado pelos partidos da região de Flandres, de maioria flamenga. Os políticos francófonos de Bruxelas são contra a unificação por temerem perder sua autonomia regional. A divisão linguística também obriga que todos os documentos usados pelas policiais sejam traduzidos – uma tarefa que só aumenta a burocracia.
A polícia federal, que em princípio deveria liderar os esforços contra o terrorismo, também passa por dificuldades, como a falta de recursos e de coordenação com as polícias locais, segundo a imprensa belga. Segundo um relatório oficial divulgado em outubro pelo Comitê P, órgão parlamentar responsável pelo controle dos policiais do país, a unidade antiterrorista da Polícia Federal contava com apenas um funcionário – e ainda por cima em meio-período – para monitorar a internet do país em busca de mensagens com conteúdos terroristas. Em resposta, Jambon anunciou que vai contratar mais dez pessoas.
"Precisamos de mais oficiais de inteligência, e não de policiais", afirmou à revista Der Spiegel Ahmed El Khannouss, vice-prefeito de Molenbeek. "É preciso saber exatamente quem se radicalizou para poder intervir na fase inicial."
Na entrevista à CNN, Geens também afirmou que a luta contra o terrorismo em Bruxelas não passa apenas pela criação de novos órgãos policiais, mas pela cooperação e melhoria de eficiência da polícia local. "A criminalidade corriqueira não tem nada a ver com o terrorismo, mas a falta de ação está colaborando para um mercado de armas e papéis e passaportes falsos em lugares como Molenbeek e precisamos combater essas coisas com a ajuda dos órgãos locais", afirmou (DW)

sábado, 13 de junho de 2015

Fim anunciado para os cadeados na ponte das Artes em Paris. Amantes desconsolados

Estamos tão apaixonados pelo amor, que estamos dispostos a matar-nos uns aos outros. Valorizamos tanto o amor que acabamos por amar o amor, em vez das pessoas. É assim o amor moderno, sobrecarregado de expetativas. Esperamos que o nosso companheiro seja perfeito. Que seja um pai, ou uma mãe, perfeito. Que seja um amante perfeito. Um trabalhador perfeito, com importância social.  É isso que diz Pascal Bruckner, filósofo e escritor, quando questionado a respeito dos cadeados presos nas barreiras laterais da Ponte das Artes, em Paris, centenas de milhares (cerca de 93 toneladas), que começaram a ser retirados há bem pouco tempo pelas autoridades da cidade, por razões de segurança. "As pessoas podiam ter morrido de tanto amor", refere ainda, num artigo publicado no "New York Times". Os amantes, esses, não encontram consolo. Porque é "muito triste", porque a ponte "estava na lista de coisas a fazer antes de morrer", porque é "melhor ter amado e selado do que nunca ter selado de todo". Querem continuar a prender cadeados (há também quem escreva neles) e a lançar depois as chaves ao rio Sena.
Mas, ao que parece, não vão poder fazê-lo. No início deste mês, as autoridades francesas anunciaram o início de uma operação que visa retirar de forma faseada os chamados "cadeados do amor". Não se trata de um ataque aos amantes e às promessas de amor eterno, mas de zelar pela segurança dos transeuntes e pela preservação do monumento. No ano passado, duas das barreiras laterais da ponte cederam ao peso de milhares de cadeados e acabaram por cair (a estrutura teve, aliás, de ser temporariamente encerrada).
"Nós reagimos porque um dos painéis não aguentou o peso dos cadeados. Ninguém ficou magoado, mas podia ter sido dramático. É por isso que estamos a retirá-los, não porque queiramos impedir as pessoas de expressar o seu amor", disse Bruno Julliad, do departamento de Cultura da Câmara Municipal de Paris, citado pelo "New York Times".
A tradição dos cadeados na Ponte das Artes (que foi construída em 1804, durante o regime de Napoleão Bonaparte, e reconstruída no início dos anos 1980) teve início em 2008, diz-se que inspirada numa lenda sérvia, que data da Primeira Guerra Mundial, sobre uma professora, Nada, que se apaixona por um jovem oficial sérvio, Relja. Os dois começam a namorar. Relja é chamado para a guerra na Grécia. Apaixona-se por outra mulher, Nada vem a saber, fica perturbada, morre pouco tempo depois.  E as raparigas da sua aldeia, que sabem da história e sonham com finais mais felizes, começam a escrever os seus nomes e os nomes dos amantes em cadeados e a fechá-los nas grades da ponte Most Ljubavi (em inglês, "The Bridge of Love"), em Vrnjačka Banja, na Sérvia, onde Nada e Relja normalmente se encontravam.  Há também quem diga que a tradição é inspirada no romance do autor italiano Federico Moccia, "I Want You", publicado em 2006, em que é descrito o ritual.  Ao fim de sete anos, eis que chega ao fim, para gáudio de alguns (que defendem o interesse do património da cidade) e desespero de muitos. As autoridades garantem, no entanto, que vão encontrar uma solução para os cadeados presos. Bruno Julliad defende que a remoção faz parte de um "plano maior" para dar às pessoas uma nova forma de "expressarem o seu amor". E garante: não se trata de uma política "anti-amor" (fonte: Expresso)